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O Belo na Missão da Universidade de Coimbra
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general
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O Belo na Missão da Universidade de Coimbra

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O Belo na Missão da Universidade de Coimbra

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Amílcar Falcão

Reitor da Universidade de Coimbra

O Belo sempre fascinou o ser humano. Dos filósofos gregos aos artistas contemporâneos, a busca pela Beleza tem sido um dos fios condutores da história da cultura. Mais do que uma simples categoria estética, o Belo é uma forma de compreender o mundo, de encontrar harmonia onde há caos e de reconhecer, no universo mais mundano das exigências quotidianas, o apelo a uma dimensão mais elevada que enquadre e dê sentido à nossa existência. Na Universidade de Coimbra (UC), essa busca pela Beleza ganha uma expressão particular: aqui, o conhecimento, a arte, a ciência e a tradição entrelaçam‑se numa paisagem que é, em si mesma, uma celebração do Belo.

A Semana Cultural da UC é, nesse sentido, uma das mais paradigmáticas manifestações da vida universitária e da forma como esta se cruza com a vida da cidade. Criada para afirmar a dimensão cultural da Academia e o seu papel na sociedade, esta iniciativa não se limita a exibir manifestações artísticas de vário tipos; constitui um palco favorável ao encontro entre o pensamento e a emoção, entre a ciência e a poesia, entre o apelo da tradição e o impulso da inovação. É um período em que Coimbra se reconhece como lugar de cultura viva, onde a Beleza se faz experiência partilhada.

Não é, de resto, por acaso que o conjunto da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia foi inscrito pela UNESCO na lista do Património Mundial. Essa distinção não se deve apenas ao valor histórico ou arquitetónico do espaço (o Paço das Escolas, a Biblioteca Joanina, a Capela de São Miguel e a Via Latina), mas também ao modo como ele testemunha a continuidade de uma tradição de saber e de cultura espalhados pelos quatro cantos do mundo — esse mundo lusófono que, desde há mais de sete séculos, tem cultivado o conhecimento numa instituição especial e a ela tem feito afluir também múltiplas manifestações de Beleza e de saber. Com efeito, a Beleza da Universidade não se esgota na sua monumentalidade. Ela vive ainda e profundamente na relação com a cidade e na dimensão intangível do seu património. Coimbra é uma cidade universitária no sentido mais pleno: nela, o quotidiano e o académico confundem‑se, o som das guitarras ecoa pelas ruas antigas, mas convive igualmente com um impulso de inovação que tem de ser estimulado em cada geração de estudantes. A sua Beleza reside, assim, nesse diálogo tensional entre o saber e a vida, entre a juventude e a memória, entre o espírito de irreverência disruptiva e a consciência da tradição.

É precisamente essa Beleza plural que a Semana Cultural da UC procura celebrar. Ao longo das últimas décadas, este evento tornou‑se um espaço de vivência de emoções, de reflexão e de criação. A cada edição, a Universidade abre‑se à comunidade, transformando as suas salas e pátios, os seus teatros e museus, em palcos de encontro entre as artes e o pensamento. Música, teatro, dança, literatura, cinema e ciência convivem num mesmo programa, mostrando que o conhecimento é, também, uma forma de arte. Com efeito, a Semana Cultural não é apenas uma mostra de talento, mas um gesto de diálogo. Através dela, a Universidade reafirma o seu compromisso com a sociedade e com a cultura, lembrando que a educação não se faz apenas de números e teorias, mas também de imaginação e sensibilidade. Ao promover a Beleza, a Universidade ensina‑nos a ver melhor — e ver, neste sentido, é compreender e aceitar como natural e desejável a riqueza representada por múltiplas sensibilidades.

Finalmente, há ainda a sublinhar uma profunda afinidade entre a Beleza e o saber humanista que caracteriza a UC. Ambos exigem tempo, atenção, capacidade de escuta. Ambos convidam à contemplação, à interpelação e ao espaço para a dúvida. Numa época dominada pela velocidade e pela obsessão técnica, a Semana Cultural configura, de alguma forma, um momento de resistência estética: nela, o pensamento pode demorar-se e o olhar deter‑se na simples fruição; nela, a palavra volta a ter peso. É um espaço em que a Beleza recupera o seu valor formativo — não apenas como prazer, mas como experiência indagadora de verdade.

Educar para a Beleza é, de certa forma, educar para a liberdade. Quando aprendemos a reconhecer o que é belo, desenvolvemos também a capacidade de discernir, de escolher, de imaginar outras formas de vida. E este é um ponto crucial em que a busca da Beleza se conjuga com a própria missão da Universidade, enquanto motor de formação integral. A ciência e a arte, a razão e o sentimento, não são polos opostos, mas caminhos complementares para compreender o mundo na sua múltipla complexidade.

Num tempo em que o pragmatismo ameaça reduzir o valor do humano à utilidade, a UC mostra que há outro caminho: o da Beleza que une, que educa e que eleva, consubstanciado no conceito de Coimbra Bauhaus. Um caminho onde a Beleza se une à sustentabilidade, à inclusão e ao bem‑estar coletivos.

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