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Herman José
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# Herman José - "O Humor pode ser a superior forma de Diplomacia"

≈ 23 minutos de leitura

MP

Marta Poiares

Fotografia: © DR\

Cedo começou a fazer do riso uma ferramenta de sobrevivência. Antes do palco, antes da televisão, Herman José, Prémio UC 2025, já tinha a necessidade de observar e de transformar o desconforto em linguagem. O humor nasceu aí: como defesa, como truque, como forma de estar.\
Ao longo de décadas, tantas quantas as da liberdade, Herman — que tanto dispensa apresentações como segundo nome, erguendo-se na força única de uma só palavra — foi acumulando vozes, gestos, personagens que se tornaram escola e memória comuns. Mas nada disso aconteceu por acaso. Houve sempre escrita, trabalho — muitas vezes penoso —, companheiros e companheiras de riso, uma atenção quase obsessiva ao detalhe e uma recusa clara da facilidade.

Hoje, com o tempo a marcar o corpo e a afinar o olhar, fala a partir de um lugar mais silencioso, mas nunca descansado. O humor permanece, não como estridência, mas como método — uma maneira exigente de atravessar o mundo sem abdicar da curiosidade.\

**Nas palavras do reitor da UC, Amílcar Falcão, vence este prémio por se tratar de uma «figura singular da sociedade portuguesa que há décadas nos a faz rir e pensar sobre as características e idiossincrasias de ser português». O que significa, para si, receber este prémio?**

Importantíssimo, porque é um prémio atribuído num contexto muito específico e interessante. Não que eu tenha uma visão pomposa da minha profissão. O Raul Solnado, que eu adorava, tinha uma necessidade enorme de ser aprovado pela elite, e lutou por isso. O Nicolau Breyner também. Eu nunca tive essa preocupação.

**Tudo é possível?**\
Tudo é possível com um bocadinho de trabalho. E o trabalho, que é a coisa que mais odeio fazer, mas o mais importante de tudo, é a escrita.

**A escrita dói-lhe?**\
É‑me completamente penosa. Dolorosa, mesmo. Mas só municiado da minha escrita é que pude fazer aquilo que fiz. De outra forma, teria feito produtos caducos.

**Fala muito dessa ideia de unir vários públicos numa só piada. E, nem por acaso, a sua carreira coincide com a liberdade — são 50 anos quase simultâneos. John Cleese dizia que a comédia é uma força democrática que une as pessoas e pode mesmo derrubar sistemas de divisão. Concorda?**

A comédia, por ser muito imediata e chegar facilmente aos públicos, sempre foi temida e sempre implicou uma gestão muito inteligente. Os bobos que sobreviviam eram os arranjavam técnicas de parecerem infinitamente livres, não o sendo, sabendo que havia ali limites que, se ultrapassados, lhes custariam a cabeça. Era um bocadinho pior ainda do que o Trump hoje em dia, porque era mais imediato e mais feroz.

Na minha vida de humorista, passei por todas as fases: mais atrevidas, mais retas, programas censurados, lutas indesejadas, gente da Igreja que achou que eu tinha ofendido a Eucaristia, tudo.

\
**Mas tudo fez sentido.**\
Há uma altura para tudo e eu fiz tudo o que tinha a fazer na altura que tinha de fazer. Com um bocadinho de sorte, porque o primeiro episódio do Tal Canal (1983/84) não era para ter sido o que escrevi, mas o que a direção de programas entendia que deveria ser. Só que houve um grande democrata, o José Niza, que se meteu pelo meio e disse: «Não, não, isto vai para o ar como quer ir para o ar». Isto na era do Mário Soares, da recuperação da liberdade e, sobretudo, da coragem. E, portanto, hoje em dia, a minha grande preocupação é criar bem-estar. Faço, sobretudo, espetáculos ao vivo e faço questão de que, depois daquela hora, hora e meia, as pessoas vão felizes para casa. E que ninguém se sinta agredido. Talvez seja próprio deste terceiro ato da vida.

**Nesse ato, é mais importante espalhar felicidade do que contundência?**\
Assumo essa fase: a da necessidade absoluta de fazer entertainment perante a hipótese de abanar a sociedade com coisas mordazes. Não me apetece. Não tenho espaço para polémicas. Costumo dizer que já não tenho mais espaço no colete anti‑balas. Porque toda a minha juventude foi muito solitária nesse aspeto. E tentaram esvaziar‑me de várias maneiras. Algumas até bastante assustadoras.

**Esse papel, exige-o hoje a outros?**\
Sim. Exijo dos mais novos que sejam corajosos. Agora, é a vez do Ricardo [Araújo Pereira], da Joana Marques, do [Bruno] Nogueira ou do [João] Quadros. Agora, é a hora de eles darem o corpo às bolas. De serem truculentos.

**Já ganhou esse estatuto, o de poder decidir?**\
Acho que não o ganhei. É o fenómeno da passagem do tempo. Chegados aos 70 anos, olhamos para a frente, vemos o limite e pensamos: se já só tenho este percurso, não vou esbanjá‑lo. Não tenho tempo para estar a esbanjar em inutilidades ou em desconforto. Aliás, se me perguntassem se hoje seria um reformado feliz… seria. Só que tinha de ser muito rico, porque só podia ser um reformado feliz, viajando em executiva pelo mundo todo e ficando em hotéis de 5 estrelas. Coisa que um artista português reformado não consegue.

**Voltando um pouco atrás, como reage a este epíteto de «25 de Abril do humor em Portugal»?**\
Há uma certa justiça nele. Quando a minha carreira começa, sobretudo a autoral, o humor que se praticava em Portugal, tanto nos filmes de variedades como na Revista, não me fazia rir. Era muito previsível. E eu pensei: «Vou ficar o resto da vida a dizer coisas nas quais não acredito? Não pode ser. Vou tentar escrever coisas que me divirtam». E o meu estilo, muito inspirado nos ingleses, nos Monty Python e na boa comédia americana, só acontece por isso.

Comecei a tentar escrever coisas que me divertiam n’*O Passeio dos Alegres* (1980‑1982), ao lado do Júlio Isidro, que foi a minha primeira cobaia, porque era o primeiro a rir das piadas que eu dizia na altura. O tipo de sucesso que comecei a ter nessa altura, sobretudo junto das novas gerações, foi aquilo que depois repeguei para fazer O Tal Canal. A partir daí, sim, sinto que criei uma certa diferença nas gerações que vieram depois. E, portanto, se há uns anos me chamassem «25 de Abril do humor em Portugal», eu refutaria. Mas, hoje em dia, aceito‑o. Sobretudo, vendo que material dos jovens humoristas vai todo beber muito aos meus tempos e àquilo que fiz. Aceito esse epíteto com muito orgulho, mas reforçando que os vários estilos que foram nascedo são muito interessantes.

Fotografia: © DR\

**Vai um bocadinho ao encontro de outro epíteto, que é o «pai da comédia em Portugal». Tendo nascido no Dia do Pai, era um prenúncio?**

Verdade, nasci. O «pai da comédia» soa‑me bem, portanto não renuncio a essa lógica. Faz todo o sentido. E vê‑se claramente nestas novas escolas, porque também há muito de mim ali e todos eles são muito gentis, entram em contato comigo e veem as minhas coisas com muita atenção.

**Como vê o humor atual em Portugal?**\
Está muito interessante, porque há mais gente a fazer. Na minha época, como estava isolado, era facilmente incomodável. Muito cansativo. Houve coisas que podia ter feito e não fiz, por excesso de medos e depressões. Hoje em dia, como há muita gente e muitos meios diferentes, podemos tirar um programa de um canal de televisão e conseguir com isso calar alguém, mas não podemos calar a Internet, nem os canais todos de YouTube, nem as publicações nas redes sociais. Essa força da quantidade faz com que o trabalho seja hoje mais fácil e mais estimulante.

**O humor continua a ser uma arma, como a cantiga (que tantas vezes alia ao humor)?**\
É muito mais do que só uma arma. Pode ser a superior forma de diplomacia. O humor, bem usado em situações de tensão, torna a vida muito mais interessante. Lembro‑me de que, na cerimónia de entrega do Prémio UC, em Coimbra, foi uma delícia ver que todos aqueles que foram falar tiveram o cuidado de temperar o seu discurso com humor, o que transformou a cerimónia num objeto leve. É essa a maravilhosa capacidade do riso, a de dessacralizar um bocadinho. Por isso mesmo é que, durante uma missa, as pessoas tentam não se rir para não tirar o sagrado da coisa, porque o humor desmancha aquilo tudo. E depois, claro, é uma arma no sentido em que uma piada muito forte fica para sempre.

**E pode ser uma arma no sentido de ser uma bengala de confiança.**\
Foi importantíssimo para mim, como tal. Lembro‑me de que, por alguma razão, os meus pais me obrigaram a usar calções curtos até tarde, numa altura em que todos já usavam jeans. Sentia‑me muito infeliz, não tinha como explicá‑lo e sei que a intenção deles era a melhor. Mas a maneira que arranjei de obviar a essa grande chatice foi estar sempre a brincar com o facto de estar de calções. Antecipava a piada, tal como muitos meninos gordos ou pessoas com deficiências. Não quer dizer que se tenha prazer em fazer isso. Mas usa‑se, efetivamente, como arma.

**Voltando aos humoristas, e citando John Cleese, de novo, «comedy always works best when it is mean-spirited»?**

Ou seja, é uma corda bamba, onde se equilibram a crítica, o humor, a ofensa, e onde rapidamente uma resvala para a outra? É preciso sublinhar que o mean tem várias graduações. Para mim, o mean ideal é a malandrice infantil. As crianças são muito diretas e têm uma maneira perversa de apontar o dedo. Mas não têm maldade, não é? Esse mean, para mim, é o melhor. Mas, depois, se for, por exemplo, para gozar com o autoritário ou com o ditador, é engraçado — e essencial — que esse bocadinho de maldade seja usado para pôr o dedo na ferida. Por isso, sim, tem de haver sempre uma pitada de mean. De outra forma, é só dar festinhas e fazer cócegas.

**Acha que o politicamente correto é uma nova censura? Com todo respeito à censura que, de facto, existiu em Portugal.**\
Eu acho que o crescimento das extremas‑direitas do mundo foi precisamente em reação a tudo aquilo que não se podia dizer. E, hoje em dia, essas direitas dizem as coisas mais escabrosas, que não se poderiam dizer em condições normais. Dá uma falsa sensação de liberdade. E isso vem em reação da longa lista daquilo que parecia mal. As regras passaram a ser tantas que aquilo que antigamente a esquerda fazia, que era partir regras e ir para a rua gritar, parece estar entregue nas mãos das extremas‑direitas que vão para a televisão dizer tudo aquilo que lhes apetece — incluindo mentir descaradamente, com um sorriso nos lábios. A esperança é sempre que a mentira fique o mais possível. Lutar contra a mentira torna‑se impossível. É como fazer uma corrida de carros numa autoestrada e, de repente, o outro vai para lá do traço contínuo duplo, em contramão. A corrida deixa de fazer sentido. Nós não vamos para a mesma faixa, nem vamos andar em contramão. E, portanto, a corrida deixa de ser corrida e passa a ser um exercício doloroso. Hoje em dia, o abuso da mentira, da arrogância, da perda de compostura, de respeito e de humanidade transformam a maravilhosa corrida democrática num exercício que é, muitas vezes, penoso.

**E como reage a casos do tão badalado cancelamento de humoristas, tanto cá como do outro lado do oceano?**\
Sempre houve casos desses, eu próprio fui vítima deles. Claro que o humor tem de ter limites — e esse limite existe, é a lei. Os tribunais, se forem puros e isentos, fazem esse controle muito bem. Mas, por exemplo, o que se passou com o Trump e com o [Jimmy] Kimmel é profundamente desagradável, mas tem que ver com o facto de Trump ser um homem de 78 anos que não tem nada a perder. E que está a tentar esticar a democracia para ver até onde é que dá. A ideia de ter sobrevivido ao suposto atentado deu‑lhe ainda mais força para achar que é uma personalidade quase divina. É fascinante. Não sou daqueles que fingem que ele não existe. Vejo tudo com muita atenção e não perco a objetividade — se houver coisas bem feitas, tenho de o dizer. Agora, a cegueira total e a ausência de diálogo inviabilizam que se cheguem a essas conclusões.

**Pois, a extrema-direita não quer bem diálogo…**\
Claro, não quer diálogo, porque perde as suas maravilhosas mentiras. Quem afirma que a Terra é plana, ou que a vacina da COVID‑19 matou e fez muito mal, não quer que lhe provem o contrário. Não vale a pena discutir. Eles não querem, sequer, ouvir uma verdade científica.

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**Mas, falando, por exemplo, do caso que talvez seja o mais badalado em Portugal — Joana Marques versus Anjos —, abre-se um precedente grave se, por acaso, se der razão a um outro lado?**\
Considero esse caso um bocadinho à margem das coisas que me preocupam. É uma brincadeira entre dois egos, de uma humorista que se está a impor, que trabalha muito e que entendeu pegar uma coisa risível e brincar com ela, e de um par de profissionais que há muitos anos vive obsessivamente a sua carreira e deve ter sido mal aconselhado. Se eles fossem cantores frágeis ou artistas sem qualquer interesse, percebia que fizessem esse esforço de haver, pelo menos, numa vitória jurídica para compensar a sua fragilidade artística. Mas não é o caso. Eles são ótimos, são músicos, são afinados. O caso é completamente supérfluo. E se dependesse de mim, se fosse dono da justiça em Portugal, seria muito mais duro em muitas coisas. Comigo, este caso não chegava a julgamento. Dizia à Joana e aos Anjos para serem felizes e pensarem noutras coisas.

**Falando dos vários meios, continua a distribuir-se por vários. A TV ainda é relevante, ainda tem uma força catalisadora, ou mudam-se os meios, mudam-se as vontades?**\
A televisão, apesar de tudo, ainda mantém uma força agregadora diferente dos outros meios. Tirando um Benfica‑Porto ou um Sporting‑Benfica, em que, de repente, o mundo fica todo sintonizado, há um total espartilhar de interesses.

A grande piada da televisão — que, obviamente, sofreu bastante com a concorrência — é que ainda há valores de produção e de rigor que dão ao objeto uma embalagem pomposa. No meu *Cá por Casa* (2016‑), por exemplo, tenho cenários maravilhoso. Esse lado faustoso só a televisão é que, por enquanto, o mantém — e era interessante não o perder. Mas vai ser uma luta dura, porque o dinheiro da publicidade, que é o que sustenta as televisões privadas, está cada vez mais distribuído pelos outros meios todos.

**Sobretudo pelo digital, que vai ganhando muito espaço e que o próprio Herman já usou como espaço de improviso.**\
Sim, e agora até já fiz uma campanha só para o digital, que vai sair em breve, e que faço com o maior prazer.

**Aliás, muitos fenómenos surgem no digital, caso do Vasco Pereira Coutinho, companheiro dessa campanha…**\
Exatamente. E, se reparar, há muitos criadores internacionais que nascem no YouTube ou no Instagram e já sobem a palcos, enchem estádios… O mundo mudou.

**O palco é, ainda assim, onde se sente mais Herman?**\
É muito importante para mim, porque faço todo o tipo de palcos — dos mais sofisticados aos mais populares — com o maior prazer. Sempre tecnicamente muito apoiado, ou seja, com muito bom som e um bonito LED wall atrás, às vezes com músicos, outras vezes sem, mas sem nunca facilitar. Para isso, prefiro não fazer. Muitas vezes , o si s tema de som e luz é quase mais caro do que o meu próprio cachê. É um esforço, mas desse luxo não prescindo. E isso dá uma garantia de que quando acaba um espetáculo, este é sempre um êxito. Apesar de a estrutura do meu espetáculo ser baseada nas mesmas coisas, estou sempre a fazer diferente para mim. Portanto, quem vê muitos espetáculos meus também se diverte comigo. As pessoas ficam muito perto de nós, vão ver‑nos muitas vezes…

**Diz que é um lugar onde não se envelhece.**\
Exatamente . Nas redes sociais, temos os filtros — olhe a Lili Caneças que está agora com 15 anos! (risos) —, na televisão, temos a idade que temos, é muito cruel… Mas no palco, a partir dos três, quatro metros de distância, somos todos iguais. A Bárbara Bandeira tem a mesma idade do que o Quim Barreiros; e a Bárbara Tinoco a mesma idade do que o José Cid. Ou seja, à distância, desde que haja voz e bom repertório, somos todos iguais. O palco é profundamente tolerante. Dou sempre o exemplo de uma artista brasileira, a Bibi Ferreira, que aos 90 anos ainda fazia espetáculos de duas horas, com orquestra, toda a gente encantada com o timbre dela. O Charles Aznavour, aos 90 e tal anos, estava a anunciar a sua digressão e prometia à filha que se iria retirar aos 100. Não chegou lá, morreu algum tempo depois, mas esteve ótimo até ao final.

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**Lembra-nos Buster Keaton, um dos grandes génios da comédia, que quando não trabalhava, não se sentia inteiramente vivo. Encarnava aquela ideia de Flaubert, do artista como alguém que despeja toda a sua existência na sua arte. Acontece-lhe o mesmo ou consegue encontrar-se no equilíbrio entre palco e bastidores?**\
Ora, se tivesse o património do Cristiano Ronaldo, não tenho a certeza se faria espetáculos. Há uns tempos, jamais lhe confessaria isto. Mas a verdade é que o que nos leva a continuar é também a necessidade de trabalhar. Ninguém em Portugal se pode dar ao luxo de ter uma vida decente e ter pessoas a seu cargo, como eu tenho, e achar que pode tirar um ano sabático, passear pelo mundo e «logo se vê». Isso é impensável. O que tenho nos espetáculos é uma maneira encantadora e prazerosa de ganhar dinheiro e de poder continuar a ter uma vida muito interessante, abraçado a uma profissão que adoro . Os Busters Keatons deste mundo, mesmo ziionários , têm uma necessidade imensa de continuar a trabalhar para se sentirem felizes.

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**Não é o seu caso, então?**\
Eu tenho uma vida interior tão intensa, e tanta curiosidade, que não sei se com outro património, teria disponibilidade e tempo de fazer 400 quilómetros para fazer um espetáculo. Talvez tivesse, e talvez continuasse a ser importantíssimo para a minha saúde mental. Se me sair o Euromilhões, logo lhe digo se continuo a trabalhar ou não. Greta Garbo ganhou tanto dinheiro que, aos 36 anos, cansou‑se de pintar a cara, começou a envelhecer à frente das câmaras e preferiu nunca mais aparecer. Foi uma mulher que morreu tarde e feliz, sem nunca mais tirar uma fotografia ou fazer um filme. Cada caso é um caso, e só estando nas próprias situações é que podemos avaliar.

**A verdade é que o mundo está num estado tão distópico que trabalhar, sobretudo com humor, acaba por fazer uma filtragem da atualidade de uma forma mais suportável.**

Se a pessoa tiver um avião privado e a capacidade de aterrar em qualquer praia das Maldivas, não sei se não se substitui essa sensação. É aí que está a minha grande dúvida.

**Vamos falar de memória. Serafim Saudade, Estebes, menino Nelito… As suas personagens entraram na família da memória, mesmo sem pedir licença. Isso é uma honra para si?**\
É. E surpreende‑me muito. Às vezes, estou a ver programas antigos meus, na RTP Memória, e fico completamente surpreendido pelo facto de não terem passado de moda. Por exemplo, o *Crime na Pensão Estrelinha* (1990/91), que considero o meu melhor projeto de sempre, é de tal maneira atual que, no jornal falso que apresentamos no programa, os monitores já se assemelham às televisões atuais. É inacreditável a quantidade de pormenosres, a modernidade dos arranjos do Tony Silva no Tal Canal… Fico espantado por termos conseguido andar tão à frente. E a verdade é que, sempre que facilitei, sempre que trabalhei menos ou sempre que fui um bocadinho menos rigoroso, esses momentos não resistiram ao tempo.

**Como foram nascendo estes «bonecos»?**\
Da mesma maneira que eu, quando era pequenino, os inventava. Quando a minha mãe recebia convidados, tinha eu 4/5/6 anos, havia sempre um momento em que ia entreter as visitas. E já nessa altura, com recurso a cabeleiras, roupa, ou outras coisas que ia apanhando, ia inventando personagens diferentes. Por isso, acho que é algo que já nasceu comigo e que acabou por correr muito bem, televisivamente.

**E radiofonicamente , também.**\
Sim, a rádio ajudou‑me, sobretudo, a estabilizar as vozes de várias personagens — aliás, a Maximiana começa na rádio. A voz é muito importante, porque se o sotaque estiver certo e a colocação de voz for perfeita, está feito o boneco.

**Acha que essa caricatura de personagens portuguesas tem um poder quase antropológico? De tipificação?**

Tem, tem. No outro dia, um jovem humorista dizia‑me que sempre que quer fazer uma personagem, o realizador reforça que eu já a fiz. A verdade é que nós, portugueses, temos um leque de cores e eu acabo por ter um boneco em cada cor desse espectro.

**Não o emociona saber que todos crescemos ou vivemos com estas personagens que nos unem?**\
Só não me emociona porque é um fenómeno que está confiado a um pequeno país. Se fosse um fenómeno mundial, emocionava‑me. Agora, acho que sou o melhor de um grupo de amigos. Portugal é um grupo de amigos de 11 milhões. Somos muito poucos. Nem sequer enchemos um quarto de uma cidade chinesa. Por isso, é muito giro e fico muito contente, mas não é emocionante. Da mesma maneira que me emociona a carreira do Frank Sinatra e não me emociona a carreira do Tony de Matos.

**Marco Neves, especialista em línguas e culturas, e persona da Internet, diz que futuros etimólogos vão estudar as suas expressões, como «Eu é mais bolos» ou «Eu é que sou o presidente da Junta». É dessa forma que se é eterno?**\
Para já, tenho de explicar que também isso era uma espécie de disfunção que me vem da juventude. Porque eu inventava coisas, mesmo na escola, que toda a gente começava a replicar. Muitas vezes, coisas surrealistas, que não queriam dizer nada.

Fotografia: © DR\

O que fiz foi aplicar isso às personagens. Sou um bocadinho menos generoso do que o Marco Neves nessa análise. Acho que a passagem do tempo vai ser mais cruel, ainda que continuemos a associar a frase «Ó Evaristo, tens cá disto?» ao maravilhoso António Silva. Talvez eu tenha direito a três ou quatro menções daqui a uns anos. Mas a maior parte delas esfumar-se‑á com o tempo, creio.

**Disse, uma vez, ter dois caminhos neste terceiro ato que menciona. O do velho do Restelo ou descobrir a verve e ser um velho que diz coisas giras. Porquê uma coisa ou outra?**

Porque, chegados a uma certa altura, põe‑se essa dúvida: vou ser arrumado na prateleira ou não vou ser arrumado na prateleira? Há coisas que não admitem meio caminho. Uma carpete branca: para mantê‑la branca, tenho de tratar, de imediato, da primeira nódoa que cai. Não posso deixar acumular, porque, a partir de certa altura, ela fica tão *dénigré* que já não vale a pena tratá-la. Ora, eu acho que com a velhice é precisamente a mesma coisa. Ou optamos pela resmunguice e pela facilidade de dizer que no nosso tempo é que era, ou lutamos para que a carpete fique branca, estando o mais atento possível ao que se passa. É preciso cultivar a humildade. E se puder aliar isto a uma leveza no contato com as pessoas, a vida fica muito mais interessante. Não quer dizer que se fique uma ameba e que se molde a tudo o que está a acontecer. Nas alturas próprias, temos de pôr os pés no chão e repor a legalidade. Mas, felizmente, acontece poucas vezes.

**O que é que o assusta?**\
Só a morte, mais nada.

**Falou uma vez também de ficar órfão de ídolos.**\
Pois, isso já não me assusta nada. A morte é a única coisa que me assusta. A da minha mãe, obviamente, e, depois, a minha. Tenho muita pena de que não tenhamos a capacidade — em situação de crise, saúde ou simplesmente idade — de tomarmos um comprimido que nos ponha a dormir eternamente. Acho horrível a quantidade de pessoas que conheço que são obrigadas a acordar todos os dias contra a sua vontade.

***Enfim, magro!* foi o epitáfio que o Jô Soares escolheu para a sua própria morte. Pensa nisso?**\
Não. Como não tenho nenhuma fé em nada, a ideia da morte é, simplesmente, um fim. É o não‑exis-tir, o não‑ser. É‑me completamente indiferente. Achei interessante ter um sítio bonito para estar e comprei‑o. Não vou dizer onde, mas é muito bonito, fica numa zona linda de Lisboa. Acho que era interessante poder ficar arrumado num sítio estético. Agora, aquela coisa dos epitáfios e das ideias e do grande prestígio pós‑morte não me diz nada.

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    - [Sobre as Metáforas e os Pontos de Vista](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/sobre-as-metaforas-e-os-pontos-de-vista/)
    - [Quando a Ciência se Revela: a Beleza da Cultura Científica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/quando-a-ciencia-se-revela-a-beleza-da-cultura-cientifica/)
    - [Estética Computacional e Inteligência Artificial (IA): Porque É que a IA Adora Hambúrgueres?](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/estetica-computacional-e-inteligencia-artificial-porque-e-que-a-ia-adora-hamburgeres/)
  - [Ágora](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/agora/) 
    - [A Beleza da Memória ante a Imperfeição da Ausência](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/agora/a-beleza-da-memoria-ante-a-imperfeicao-da-ausencia/)
    - [Um Tesouro Resgatado: o Retrato do Sábio Príncipe, D. José (1714–1777)](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/agora/um-tesouro-resgatado-o-retrato-do-sabio-principe-d-jose/)
  - [Patrimónios](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/) 
    - [Figuras Alegóricas e Palavras Aladas: os Tetos da Biblioteca Joanina](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/figuras-alegoricas-e-palavras-aladas-os-tetos-da-biblioteca-joanina/)
    - [A Beleza Intrínseca à Autenticidade.](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/a-beleza-intrinseca-a-autenticidade/)
    - [Uma Nova Biblioteca para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/uma-nova-biblioteca-para-a-fduc/)

- [Ao largo](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/)
  - [Crónica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/cronica/) 
    - [Quando a Natureza nos Interpela.](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/cronica/quando-a-natureza-nos-interpela/)
  - [Entrevista](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/entrevista/) 
    - [Herman José - "O Humor pode ser a superior forma de Diplomacia"](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/entrevista/herman-jose/)
  - [Criação Literária](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/criacao-literaria/) 
    - [Veias](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/criacao-literaria/veias/)
    - [Sinais](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/criacao-literaria/sinais/)
  - [Lugar dos Livros](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/lugar-dos-livros/) 
    - [Prémio Joaquim de Carvalho 2025](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/lugar-dos-livros/premio-joaquim-de-carvalho-2025/)
    - [Livros em Destaque](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/ao-largo/lugar-dos-livros/livros-destaques/)