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Quando a Ciência se Revela: a Beleza da Cultura Científica
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# Quando a Ciência se Revela: a Beleza da Cultura Científica

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# Quando a Ciência se Revela: a Beleza da Cultura Científica

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IS

Inês Amado da Silva

Centro de Neurociências e Biologia Celular e Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia, Universidade de Coimbra

SA

Sara Varela Amaral

Centro de Neurociências e Biologia Celular e Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia, Universidade de Coimbra

Ilustração: Rita Félix\

A cada novo instante, a realidade torna‑se, concomitantemente, mais clara e mais complexa. A medida alucinante dessa mudança é a de seis segundos: a cada seis segundos, em média, na forma de publicação de um artigo científico, é feita uma nova descoberta. É assim, com cada descobrimento, que «o mundo pula e avança», escreveu o poeta‑pedagogo‑cientista Rómulo de Carvalho (António Gedeão, de seu pseudónimo literário). Ainda que nem todas sejam revolucionárias, cada descoberta transporta consigo, pelo menos, a pequena revolução interna provocada em quem observa, em tempo real, o gesto alquímico do mundo, o movimento perpétuo das coisas, a regeneração permanente da matéria. Uma revolução que começa, antes de tudo, com o deslumbramento perante o conhecimento, com a intuição de um novo caminho; e que continua, depois, dentro dos olhos de quem está ao microscópio, nas mãos de quem manipula um balão de Erlenmeyer, no pensamento de quem escreve um artigo e que, em resultado do seu gesto metódico, extrai uma novidade, um novo padrão, um novo modo de ver e de contribuir para o bem comum. Assim se revela a beleza da investigação científica.

Era também da beleza do desconhecido desvendado que Camões falava quando escreveu, em Os Lusíadas, que os portugueses, no Renascimento europeu, mostraram «novos mundos ao mundo». No momento histórico a que ainda hoje chamamos «Descobrimentos», não se pode dizer que os portugueses tenham realmente descoberto os povos e os países conhecidos de outros há tanto tempo. Pode dizer‑se, antes, que os portugueses executaram, sempre que possível, descrições resultantes da observação direta, contribuindo para edificar o método científico criado nos séculos seguintes.

A verdade é que nem nos alvores da revolução científica, no século XVIII, com o privilegiar do empirismo e a criação do método científico, se perdeu por completo o deslumbre perante a experiência. No auge do século do racionalismo, Kant radica na razão a experiência do sublime — a experiência intensa, esmagadora, em que nos é imposta a magnitude ou dimensão de um evento ou da natureza, de algo maior do que nós. De forma diferente da beleza, o sublime também pode ser terrífico, e está mais relacionado com a dimensão e o inefável, remetendo para uma experiência complexa, daquilo que nos abala e que temos dificuldade em abarcar — algo diferente da experiência estética mais simples das formas belas, que conseguimos facilmente apreender, mas talvez próximo do estarrecimento perante as dimensões da vida e da matéria em que se processam muitas descobertas científicas.

A resposta subjetiva ao Iluminismo chega com Goethe, para quem conhecimento e beleza, ou natureza e ideias, são inextrincáveis. Para Goethe, beleza significa harmonia, como fica plasmado em A Metamorfose das Plantas, obra de 1790 na qual, através da observação aturada dos movimentos e formas do mundo vegetal, compreendeu como beleza o movimento da vida e a transformação das plantas. No âmbito do romantismo alemão, Goethe procurou devolver ao mundo o deslumbramento perante a transformação, guardado na beleza do momento da observação.

Hoje, já no século XXI, entendemos que a beleza da ciência e da descoberta científica não pode ser revelada sem ser comunicada, sem ser democratizada. A cada descoberta nasce um instante de deslumbramento para um ou uma cientista, momento que raramente é visível para o mundo. Porque a ciência, por si só, não fala: precisa de ser traduzida, contada, integrada na linguagem comum do dia a dia. É assim que a ciência entra na cultura e é assim que nasce a cultura científica: do esforço de tornar partilhável aquilo que não pode ficar só nos laboratórios.

Talvez mais do que em qualquer outro momento histórico, a ciência é tomada como um bem comum e sentida como uma necessidade. E é através da comunicação de ciência que ciência e sociedade se encontram, negoceiam significados, criam colaborações, constroem confiança e descobrem novas formas de ver o mundo. É o modo como o conhecimento se integra na vida comum e a ilumina que dita a promoção e a integração de uma cultura científica.

Na Universidade de Coimbra (UC), esta convivência entre saberes e busca por uma verdadeira cultura científica tem crescido através de múltiplas práticas e linguagens. A relação entre teatro e ciência, que dá corpo às ideias e emoção aos conceitos; a criação de conteúdos educativos, como livros que contam histórias onde a ciência se esconde nas personagens ou jogos que transformam aprendizagem em descoberta lúdica; os vídeos que revelam bastidores de laboratório; as crónicas, as opiniões e as notícias que mostram a evolução do conhecimento e fazem pontes entre quem investiga e quem lê. A celebração da curiosidade em momentos como a Semana da Ciência e Tecnologia ou a Noite Europeia dos Investigadores, em que a ciência, o entretenimento e a cultura dão as mãos. A ciência também é revelada através da ilustração ou banda desenhada, que transforma detalhes microscópicos e complexidades escondidas em imagens claras, atrativas e delicadas.

Estas práticas ganham força porque trabalham com a sociedade real: crianças com espanto e ingenuidade, jovens em busca de direção, adultos que regressam à curiosidade pela porta da cultura, seniores que trazem memórias, doentes e cuidadores que encontram na ciência a esperança e formas de compreender melhor a sua realidade e participar ativamente nela. A ciência que dialoga com as pessoas não é apenas conhecimento: é cuidado, pertença, evolução. É a construção de um mundo melhor, mais justo, mais promissor.

Quando cientistas, artistas, educadores e cidadãos se juntam não somam apenas competências: a ciência ganha novas linguagens, a arte ganha novas matérias, a sociedade ganha novas soluções. Este é um cruzamento que produz algo muito maior do que cada contributo individual. Cientistas trabalham lado a lado com artistas, professores e famílias. Também a ciência cidadã vai ganhando espaço, como a forma mais evidente desta relação onde os cidadãos são convidados a participar diretamente na investigação: recolhem dados, observam, registam, analisam, ajudam a formular perguntas e a descobrir respostas. Aqui, a investigação deixa de ser apenas para as pessoas e passa a ser também com as pessoas.

Por tudo isto, a comunicação de ciência funciona hoje como um espelho da descoberta e da investigação. Comunicar ciência é segurar o espelho que permite ver aquilo que não é evidente à primeira vista, seja pela escala infinitamente pequena, pela complexidade escondida ou pela linguagem que nem todos dominam. Esse espelho não distorce, mas antes revela e amplia. Devolve ao mundo uma tradução, em forma de imagem clara, do progresso do que é descoberto e do seu impacto na vida da sociedade e de cada um. Quando refletida assim, a ciência mostra‑se, por fim, como realmente é: humana, imperfeita, persistente, apaixonada, feita de tentativa e erro, de avanços e recuos.

A beleza da investigação não está apenas no que se descobre, mas no fascínio diário dos e das cientistas por uma molécula, uma estrela distante, um gene silencioso, uma palavra antiga, um comportamento inesperado ou uma solução tecnológica que pode melhorar vidas. São estes que, todos os dias, criam e descobrem caminhos para um mundo mais complexo e inevitavelmente mais belo. Mas tudo isto só se torna visível e possível, quando partilhado, porque o que não é comunicado não chega a transformar. E é na trans-formação — das pessoas, das comunidades, da ciência — que reside a sua força. No fundo, comunicar ciência é devolver ao mundo a possibilidade de se maravilhar. E esse gesto, simples e profundo, é já por si uma forma de beleza.

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