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No Centenário da Morte de Camilo Pessanha
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No Centenário da Morte de Camilo Pessanha

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No Centenário da Morte de Camilo Pessanha

«Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa.» (Fernando Pessoa)

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AL

António Apolinário Lourenço

Professor aposentado da Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra (FLUC) membro da Comissão Organizadora do Centenário da Morte de Camilo Pessanha

Nasceu em Coimbra, no dia 7 de setembro de 1867, o poeta mais representativo da estética simbolista em Portugal, Camilo Pessanha. O seu pai, o estudante de Direito Francisco António de Almeida Pessanha, de ascendência aristocrática, mas sem meios de fortuna, não assumiu naquele momento a paternidade, o que só viria a fazer na véspera da entrada do seu filho na universidade. Assim, foi registado apenas com o nome da mãe, Maria do Espírito Santo, natural do concelho de Tábua, que nunca ultrapassou o papel de criada de Francisco, apesar de viverem uma relação que hoje seria considerada uma união de facto, da qual resultariam quatro outros filhos. Camilo Pessanha viria a falecer em Macau, que era então um protetorado português encravado em território chinês, no dia 1 de março de 1926. Nesse território asiático, no qual viveu e trabalhou de 1894 até à data da sua morte, o poeta exerceu funções de professor, conservador do registo predial, juiz e advogado.

O Simbolismo constituiu um momento de profunda rutura com a estética realista, ao colocar em causa, nas palavras de George Steiner em Presenças Reais, o pacto de referência que assentava na identificação da palavra com o mundo, ou seja, na crença de que a palavra, através do seu significado, remetia coerentemente para uma referência externa. De facto, na poesia de Pessanha prescinde‑se das descrições, definições ou narrativas coerentes, optando‑se pela utilização do símbolo e do correlativo objetivo para transmitir as emoções e os sentimentos mais profundos do sujeito do enunciado lírico.

Assim ocorre no famoso soneto, em versos alexandrinos, que começa com o verso «Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho», em que os «castos lençóis», os «altos girassóis» do seu «jardim exíguo», que alguém «arrancou e lançou no caminho», a mesa de cear, a lenha espalhada ou o vinho entornado não são mais do que a expressão lírica da pavorosa agonia da sua alma, para usar palavras do poeta, registadas numa carta a Ana de Castro Osório, escrita em Macau, em 5 de novembro de 1916.

Durante o tempo em que viveu neste território oriental, o que ocorreu, como vimos, entre 1894 e 1926, Camilo Pessanha, dotado de uma saúde física extremamente frágil, deslocou‑se por quatro vezes a Portugal para tratamento médico ou para gozo das licenças a que tinha direito como funcionário colonial. O período mais longo de residência ininterrupta na metrópole decorreu entre 1905 e 1909, precisamente para receber cuidados de saúde que não lhe poderiam ser prestados no protetorado de Macau, cujo clima também não era particularmente benéfico para o poeta. Essa estada prolongada acabaria por ser decisiva para dar a conhecer à elite literária da metrópole, e particularmente às gerações mais novas, a existência de um poeta praticamente inédito, isto é, sem obra publicada a não ser um exíguo número de textos em prosa e verso em órgãos de imprensa regionais. Foi nesse período, provavelmente em 1908, que Fernando Pessoa conheceu Pessanha, numa tertúlia do Café Suisso, que se localizava entre o Rossio e os Restauradores, em Lisboa. É através da carta que o autor de Mensagem escreveu ao poeta coimbrão, em 1915, convidando‑o a colaborar na revista Orpheu, que temos conhecimento desse encontro, promovido pelo general Henrique Rosa, e do deslumbramento sentido pelo candidato a escritor que era então Fernando Pessoa ao ouvir os belos poemas que Pessanha recitou. É bem possível que também estivesse presente nesse encontro o escritor e conservador do registo civil Carlos Amaro, fiel depositário de muitos dos poemas de Pessanha que circulavam em manuscrito pela capital. Nessa altura, Fernando Pessoa não conhecia ainda Mário de Sá‑Carneiro, que só conheceria em 1912, pouco antes da partida deste para Paris; mas ainda nesse ano, numa carta remetida da capital francesa, o autor de Céu em Fogo solicitava ao seu amigo Fernando que lhe enviasse cópia de alguns poemas de Pessanha para mostrar a Santa‑Rita Pintor, que desprezava a literatura e a arte portuguesas. Dois anos mais tarde, o autor de A Confissão de Lúcio, em resposta a um inquérito do jornal República, que questionava os escritores portugueses sobre «O mais belo livro dos últimos 30 anos» editado em Portugal, fazia recair a sua predileção sobre o livro, não publicado, «que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha, o grande ritmista». Num dos diários episodicamente redigidos por Fernando Pessoa, pode ler‑se que o criador dos heterónimos, em 19 de março de 1913, recitou versos de Pessanha na redação da revista Teatro.

Mas foi a última visita de Camilo Pessanha a Portugal (1915‑1916) que lhe proporcionou a possibilidade de tomar consciência da ressonância que o seu nome ia adquirindo nos círculos literários do país. Foi em 1916 que, pela primeira vez, se reuniu numa revista, no caso a Centauro, de Luís de Montalvor, um importante núcleo da sua obra poética, no qual se encontrava grande parte dos poemas que Fernando Pessoa tinha solicitado para a Orpheu. Foi também nessa última deslocação do poeta ao Portugal europeu que Ana de Castro Osório recolheu os poemas que viriam a integrar a primeira edição da Clepsidra, que ela mesmo publicaria, em 1920, nas Edições Lusitânia.

Na Clepsidra original, e noutros poemas que entretanto lhe foram acrescentados, descobrimos um poeta capaz de expressar simbolicamente as grandes emoções e os profundos sentimentos de uma alma mortificada por uma vida familiar desestruturada, por uma saúde fragilizada, pelas dificuldades económicas que atormentaram a sua juventude e também pelo evidente fracasso da sua vida sentimental. Tudo isto acaba por constituir o alimento espiritual da sua poesia, embora sem expressão direta nos seus versos, que são quase sempre belos e harmoniosos, sem denunciar nem comprometer a sua intimidade.

A observação sumária da biblioteca pessoal de Camilo Pessanha, hoje diluída na biblioteca do Leal Senado de Macau, e virtualmente reconstituída por Daniel Pires, permite verificar, sem surpresa, que os poetas simbolistas nela mais representados são Paul Verlaine e Rubén Darío, precisamente dois extraordinários ritmistas, para usar a palavra com que Sá‑Carneiro define o seu mestre Pessanha. E mestre foi justamente o que Pessoa chamou a Pessanha num manuscrito datado de novembro de 1934, onde registava que apenas três poetas portugueses dos séculos XIV mereciam ser considerados mestres: Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha:

Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. Com Cesário Verde se fundou entre nós a poesia objetiva, igualmente ignorada entre nós. Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa. Qualquer dos três, porque qualquer um homem de génio, é grande não só adentro de Portugal, mas em absoluto.

A evocação do centenário da morte de Camilo Pessanha traduzir‑se‑á, na Universidade de Coimbra (UC), em vários momentos, de que destaco um Congresso Internacional dedicado ao poeta, a realizar em 11 e 12 de maio de 2026, que será acompanhado por uma exposição bibliográfica dedicada ao autor, na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral da UC. A organização do Congresso tem a coordenação do Centro de Literatura Portuguesa (CLP) e conta com o apoio e a colaboração das Faculdades de Letras e de Direito da UC. Estas atividades integram‑se num conjunto de eventos evocativos do escritor, organizados pelo CLP e pelo Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, com a colaboração da Pró-Associação 8 de Maio e o suporte institucional da Reitoria da UC e da Câmara Municipal de Coimbra.

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