A Beleza Intrínseca à Autenticidade.
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A Beleza Intrínseca à Autenticidade.
SALVAGUARDA E REUTILIZAÇÃO DE MOBILIÁRIO E LUMINÁRIAS ORIGINAIS DA ANTIGA FMUC
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PG
Pedro Costa Gama
Arquiteto e coordenador de projetos para o Serviço de Gestão das Instalações e Património da Universidade de Coimbra (SGIP‑UC, 2020/25).
O velho nem sempre está ultrapassado, não é necessariamente fraco, muito menos mau. Pode ser verdadeiramente bom, autenticamente belo. Do «sótão da tia» para a nossa sala, da sucata para um stand, de uma venda de garagem para o museu. Da pesquisa e digitalização dos preciosos testemunhos da Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (CAPOCUC), para o espólio de peças desenhadas e escritas no cadastro do edificado da Universidade de Coimbra (UC). Do esquecimento para o conhecimento, da informação prévia para o projeto, da memória descritiva para a obra. O controlo dos arquivos permitiu‑nos optar por intervenções silenciosas, sem autoria evidente e contrastante, além de catalisar o resgate de mobiliário, armaduras e globos de iluminação originais (LOBO, 2015). Assim foi nos projetos para a antiga Faculdade de Medicina (FMUC), atual Edifício Central do Polo I, classificado como Monumento Nacional (Figura 1). Considerando as premissas incontornáveis da acessibilidade, salubridade e conforto, restaurámos o que salvaguardámos, preenchemos lacunas com réplicas, reutilizámos elementos efetivamente originais e introduzimos o novo de forma distinta, mas subtil.
A FMUC (AUC, CAPOCUC. Processo‑238) integra o conjunto monumental projetado pela ideologia estado‑novista, para a brutal ampliação da universidade na Alta de Coimbra e inexorável demolição dessa vila dentro da cidade (ROSMANINHO, 1996). Volvidas sete décadas, com a transferência da maior parte desta Faculdade para o Polo III, os espaços foram sendo desocupados e adaptados aos programas da Administração, em conformidade com a candidatura da UC a Património Mundial ou com a ampliação dos Serviços existentes. As intervenções aqui mencionadas (projetos desenvolvidos desde 2020 e obras assistidas desde 2022) respeitaram o Bem classificado e defenderam a integridade tipológica através da recuperação dos partidos originais, quer na fluidez das circulações, quer na rigidez das divisórias. As propostas foram de conservação, manutenção e reabilitação dos elementos patrimoniais, tanto construtivos como de equipamento. Na busca de melhores condições para os programas requeridos, aplicaram‑se técnicas e materiais compatíveis com o existente, além de reversíveis para a eventualidade de futuras alterações.
No reforço da área da Saúde, e numa lógica de distribuição complementar aos serviços existentes — Laboratório de Análises Clínicas (LACUC) e Unidade de Psicologia Clínica (UPC3) —, planeámos e executámos a ampliação dos Serviços Médicos na ala Sul do Piso 2 (fachada norte do Pátio). De acordo com os princípios de salvaguarda vigentes, acautelámos a introdução de elementos novos, como divisórias, tetos falsos, vãos e revestimentos interiores. Encontrámos o pavimento autêntico, debaixo de alcatifa ou camadas de tinta, na melhor marmorite vista em 20 anos de profissão. Replicámos o desenho do rodapé‑tipo do edifício, restaurámos e recolocámos aros, guarnições e portas — tudo lacado ao cinza claro original das carpintarias neste edifício. Conseguimos restaurar os tetos de falso medalhão com juntas biseladas no acabamento em estuque. Foram abertos alçapões, para manutenção das infraestruturas elétricas, e os remates entre paredes e tetos refeitos em junta seca recuada.
Na Sala do Pessoal, a entrada foi demarcada por uma cortina opaca retráctil, de calha suspensa semelhante às hospitalares, num momento sem paredes que reproduz a escala e dimensão dos halls existentes entre os corredores principais e os gabinetes. Reutilizámos o mobiliário (CAPOCUC 2008‑107, 332, 375, 419, 437) desenhado pelo arquiteto do edifício, Lucínio Guia da Cruz: uma antiga bancada de laboratório com novos lava‑louças, torneiras, micro‑ondas, frigoríficos e arrumação, com tampo em contraplacado de fenólico negro e forra vertical cinza sobre a parede até uma nova prateleira. As secretárias existentes foram ampliadas para mesas de refeição nesse mesmo material, assim como o balcão corrido sob as janelas para individuais, suportado por cachorros de aço no mesmo cinza.
Figura 1\
Figura 3\
Figura 4\
Figura 1 — Foto aérea da Cidade Universitária de Coimbra e Instalações Académicas, Coimbra, Portugal, 1961. © Varela Pècurto, Imagoteca da Câmara Municipal de Coimbra, 2022.
Figura 3 — Consultório Médico, Ampliação dos Serviços Médicos, SASUC, Coimbra, Portugal, 2023. ©Paulo Amaral, Universidade de Coimbra, 2023.
Figura 4 — Arq. Lucínio Guia da Cruz, Edifício da Faculdade de Medicina — Projecto Actualizado, Lisboa, Portugal, 1956. ©Arquivo UC, CAPOCUC processo 238, Folha 23, Corte por C-D, 2022.\
Reintroduzimos, ainda, uma prateleira com cabides e bengaleiro na entrada, caixotes do lixo debaixo da banca e cadeiras — tudo original (Figura 2). Nos Gabinetes Médicos, mantivemos secretárias e poltronas, marquesas e bancos hospitalares, e armários para farmácia (Figura 3). Os apliques metálicos lacados a pérola e os difusores de vidro branco‑leite, que compõem a coleção desenhada pelo mesmo arquiteto para o vasto edifício (CAPOCUC 2020‑24‑30‑40), foram igualmente restaurados e restituídos aos espaços renovados.
Nos três projetos seguintes para este edifício — a reabilitação das cinco prumadas de Instalações Sanitárias (I.S.) —, ganhámos a dimensão total do monumento, uma vez que os projetos passaram a desenvolver‑se da cave à cobertura e em todas as alas (Figura 4). Em 2024, reabilitámos a prumada Nascente, entregámos o Projeto de execução para outras duas na ala Poente e, em 2025, elaborámos o Estudo prévio das prumadas Norte e Nordeste (Figura 5). Nos tetos sobreviventes em falso medalhão, os alçapões foram previstos no mesmo material, dimensão e detalhe, sendo reconhecidos pela junta seca comparativamente aos restantes módulos. Aqui, reintroduzimos o partido inicial dos globos de iluminação: o pequeno e vertical nos arrumos, o médio e redondo nos halls, e o maior e perfilado nas I.S. propriamente ditas. Sobre as entradas, readaptámos os obsoletos sinalizadores piramidais como besouro e luz de segurança. Os caixotes de lixo em madeira maciça foram restaurados e colocados abaixo das novas papeleiras (Figura 6).
Da obra inicial a Nascente, mantivemos as incontornáveis premissas da mobilidade reduzida e da restituição de higiene, que as louças da antiga Valadares e os puxadores e torneiras da extinta Cifial, passados 70 anos, já não podiam garantir. O particular interesse do projeto para as prumadas Poente foi ter sido desenvolvido aquando da obra Nascente, não por problemas de erros ou omissões, mas por podermos melhorar um projeto paralelo a uma obra semelhante.
Foi preciso este conhecimento, além da apelidada sensibilidade, para reconhecer beleza num «monte de lixo» amontoado num desvão de telhado (Figura 7), no chão de uma sala esquecida (Figura 8), num arrumo forrado a prateleiras cobertas de pó, ou mesmo na «catacumba» da antiga Casa do guarda na Medicina Legal (INML). Independentemente do espaço, seu grau de utilização ou estado de conservação, e das diferentes razões que o deixaram assim, havia uma particularidade que unia o mobiliário e as luminárias que encontrávamos, para lá da autêntica e irrepreensível qualidade dos materiais: o desenho de autor (Figuras 9 e 10).
Figura 5\
Figura 6\
Figura 7\
Figura 5 — Cortes Transversais I.S., Reabilitação das prumadas Norte e Nordeste, FMUC, Coimbra, Portugal, 2025. © Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2025.
Figura 6 — I.S. Feminina e Masculina 1.º andar, Reabilitação da prumada Nascente, FMUC, Coimbra, Portugal, 2024. © Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2024.
Figura 7 — Sótão da ala Sul, FMUC, Coimbra, Portugal, 2022. © Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2022.
Foi preciso tomar ação para conquistarmos o reuso destes valiosos elementos, além de os representar nos projetos, referenciar nos licenciamentos à tutela e nos concursos de empreitada. Foi preciso agir acima de falar e escrever, insistir constantemente na sensibilização dos colegas e chefias. Foi preciso dar o exemplo: pegar no primeiro globo de vidro virado ao contrário no chão, a apanhar pingos da chuva, e trazê‑lo até ao fim da vistoria às estruturas da cobertura.
Foi preciso ignorar o escárnio e gerir o tempo para nunca deixar este cuidado interferir com as «verdadeiras» funções contratadas e saber onde estava o mobiliário que se pretendia limpo ou restaurado. Apontar o corredor específico em que estavam encostados e carregar cabides, cadeiras, poltronas, bancos, bengaleiros e caixotes do lixo para poderem ser reutilizados (Figura 11). Das luminárias, saber das serralharias, acessórios e belíssimos difusores. Até das elegantes tampas de caixas de derivação e interruptores da iluminação originais compilámos stock. Perante «questões de segurança», comprovámos o perfeito estado da porcelana isoladora onde os parafusos metálicos enroscavam.
Foi preciso guiar profissionais de mudanças até onde estavam os móveis mais pesados, entregar os mais leves em mão aos carpinteiros, remontar as aparelhagens com todos os elementos e apresentá‑las aos eletricistas, prontas a aplicar (Figura 12). Ganhar o respeito dos empreiteiros por «saber o que as coisas custam» e sentir a empatia dos subempreiteiros pelo esforço e dedicação. Ouvir a seguinte beleza, certo dia, no final duma obra: «Está a ver arquiteto, como nos arranjou tudo, nós também conseguimos o que queria. Qualquer dia ainda vem trabalhar connosco!» Estas intervenções não foram simplesmente minimalistas, pretenderam‑se silenciosas. Ao contrário da tendência do Contraste em prol da clarificação absoluta, reconhecemos vantagens na menor intrusão da Analogia (SOLÀ‑MORALES, 1990). Respeitámos os critérios do ICOMOS, interviemos com cuidado nas introduções e salvaguardámos a Autenticidade sempre que possível, mantendo acima de tudo a bela Identidade.
Figura 8 — Cave da ala Nordeste, FMUC, Coimbra, Portugal, 2022. ©Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2022.\
REFERÊNCIAS
CAPOCUC, Processos Faculdade de Medicina UC
-vários processos. Arquivo da Universidade de Coimbra
Nuno Rosmaninho, O Princípio de uma Revolução Urbanística no Estado Novo. Os Primeiros Programas da Cidade Universitária de Coimbra 1934- 1940. (Coimbra: Minerva, 1996), 42‑48.
Manuel de Solà‑Morales, Do Contraste à Analogia.
Lotus International 64: L’Altra Urbanistica
-The Other City Planning (Milão: Elemond periodici, 1990)
Susana Lobo. Risco Interior: o Desenho de Mobiliário na Cidade Universitária de Coimbra.
(Coimbra: AnoZero, Edições Almedina SA, 2015)
Figura 9 | Figura 10 | Figura 12 | Figura 11
Figura 9 — Arq. Lucínio Guia da Cruz, Edifício da Faculdade de Medicina — Mobiliário, Lisboa, Portugal, 1956. © Arquivo UC, CAPOCUC processo 332, Cadeiras Tipo-C e Diversos Tipo-D, 2022.
Figura 10 — Arq. Lucínio Guia da Cruz, Edifício da Faculdade de Medicina — Instalação Eléctrica, Lisboa, Portugal, 1956. © Arquivo UC, CAPOCUC processo 2020-24, Armaduras de Iluminação, 2022.
Figura 11 — Escadote, cabide, bengaleiro, cadeiras e caixotes, Arrumo do SGIP, FMUC, Coimbra, Portugal, 2023. © Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2023.
Figura 12 — Aparelhagens elétricas prontas a instalar, Gabinete do SGIP, FMUC, Coimbra, Portugal, 2023. ©Pedro Costa Gama, COLECTIVO arquitectos, 2023.
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