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Um Tesouro Resgatado: o Retrato do Sábio Príncipe, D. José (1714–1777)
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# Um Tesouro Resgatado: o Retrato do Sábio Príncipe, D. José (1714–1777)

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# Um Tesouro Resgatado: o Retrato do Sábio Príncipe, D. José (1714–1777)

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DL

Diogo Lemos

Professor assistente convidado na Faculdade de Letras e investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura, Universidade de Coimbra

***Um príncipe reencontrado num leilão***\
No dia 14 de dezembro de 2023, um retrato identificado apenas como «de um jovem» foi à praça na Sotheby’s de Paris. Integrava a coleção de Hubert Guerrand‑Hermès (1940–2015), descendente do fundador da célebre marca francesa. Entre várias peças de exceção — como uma cadeira do boudoir da rainha Maria Antonieta (1755‑1793), vendida por mais de dois milhões de euros, ou uma tela de Pierre Soulages (1919‑2022), arrematada por mais de três milhões —, esta discreta pintura escondia um segredo que, afinal, sempre esteve à vista de todos: tratava‑se do príncipe D. José (1714‑1777), futuro rei de Portugal.

A Universidade de Coimbra (UC) adquiriu a obra, trazendo‑a de novo a território português. Fragmento raro e notável da retratística setecentista, a tela encontra‑se datada de 1726 e assinada por Giorgio Domenico Duprà (1689‑1770) — pintor saboiano ao serviço de D. João V (1689 ‑1750), encarregado de projetar a imagem da família real portuguesa no plano interno e externo. Serviu D. João V entre 1719 e 1730.

Figura 2 — João Macphail (desenho), estudante de Coimbra, 1844, Arquivo Municipal de Coimbra\

***A imagem fora da norma***\
A ausência, nesta pintura, dos tradicionais atributos das reais pessoas é desconcertante. Faltam o manto de arminhos, o bastão de comando, a couraça metálica e os ricos tecidos debruados a pedras preciosas. Estes elementos tinham sido, aliás, cuidadosamente prescritos pela Real Academia da História Portuguesa, sensivelmente um ano antes de Duprà concluir este retrato. O objetivo era claro: equiparar o programa iconográfico dos retratos do Príncipe do Brasil ao de outros congéneres europeus — autênticos instrumentos de diplomacia visual destinados a afirmar Portugal entre as potências católicas.

Ora, o retrato adquirido pela UC contraria, assim, as prescrições coevas. O jovem herdeiro surge numa sobriedade quase ascética: traje negro, fundo neutro e total ausência de insígnias da dignidade principesca. De entre todos os retratos conhecidos de D. José, este é o único em que o príncipe abdica completamente dos sinais de aparato estabelecidos, recusando até as mais elementares peças‑padrão do traje cortesão — como o colete, a casaca e sobrecasaca e o indispensável lenço de renda ao pescoço.

Mas se o retrato prescinde da ostentação material, não é por isso isento de gravidade. A riqueza é de outra natureza, ligada à virtude da sabedoria e ao contexto do estímulo da erudição cortesã, que coexistia com o de exploração dos recursos transatlânticos e com o fomento das artes. Assim, a cor negra do traje e o silêncio das insígnias tornam‑se sinais de distinção: o fulgor das pedras e dos metais preciosos dá lugar ao brilho tácito da (desejada) sapiência.\
\
***O traje e o ideal de erudição***\
O príncipe ostenta todos os atributos do «hábito de estudante»: batina negra, de fileira abotoada, cingida por cabeção e volta branca, completada pelo mantéu talar — a célebre capa, enrolada no antebraço. Não apenas associado aos estudantes, os «vestidos talares pretos», conforme as pragmáticas vigentes, podiam também ser usados por figuras letradas da corte que ocupavam cargos da máquina do Estado (como magistrados), bem como por «clérigos de Ordens Sacras». Todos os demais cidadãos que se apresentassem «vestidos à abatina, em hábito talar» incorriam em crime.

A par do traje, também a pose do príncipe contribui para a materialização da dimensão académica e/ou formativa — ou do conhecimento alcançado, se quisermos antes. Com os quatro dedos postos dentro da batina e o polegar fletido, D. José repete um gesto que remonta à retórica clássica, mencionada por autores como Quintiliano (c.35‑c.95) e incorporado na pedagogia retórica jesuítica. Indica disciplina, compostura e domínio do discurso. Não surpreende, pois, que tenha sido repetido na iconografia que, entre os séculos XVIII e XIX, tipificou o académico coimbrão: era um código visual de erudição, particularmente da arte da retórica — disciplina fundamental na formação pré‑universitária e indispensável a quem ambicionasse prosseguir estudos na Universidade.

Figura 3 — Ferdinand (colorido), estudante de Coimbra, [s.d.], Espagne et Portugal — Musée Cosmopolite. Album de costumes espagnols et portugais. ed. Aubert, Paris, c. 1850\

Mas, mais do que uma semelhança, o retrato do príncipe estabelece uma identidade visual deliberada. D. José dá corpo a um plano mais vasto: o de difusão da imagem de um herdeiro culto e instruído. No Portugal joanino, as academias floresciam, a ciência servia a expansão do império e a cultura ilustrada tornava‑se instrumento de afirmação régia. É neste enquadramento — essencialmente político — que se compreende o tom exaltado das crónicas e encómios setecentistas, que apresentavam o jovem D. José como particularmente dotado — diziam — de «viva comprehensão» e «talento sublime». Os panegíricos afirmavam que dominava a aritmética «com tanta exacção que poucos oficiais dos tribunais o igualariam» e que se destacava na geometria e nas ciências práticas com notável destreza. Nem sempre, porém, esses louvores refletiam com rigor a realidade. Sabe‑se, por exemplo, que no domínio das línguas — área do saber em que era apresentado como especialmente versado —, o príncipe não compreendia plenamente o francês, língua franca da diplomacia e da República das Letras, na qual circulava grande parte do conhecimento científico e intelectual europeu.

Como quer que possa ser, mais do que fixar a realidade, Duprà traduz o ideal que a monarquia desejava projetar: o do príncipe‑sábio, disciplinado e prudente, modelo de virtude e erudição.

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***Proveniência e percurso: uma incógnita por desvendar***\

Através das fontes apuradas, foi, contudo, possível constatar que o retrato pertenceu, já no século XX, ao último rei de Portugal, D. Manuel II (1889‑1932), encontrando‑se na sua residência de exílio em Fulwell Park, Londres. Uma fotografia de época mostra‑o exposto na «Sala do Órgão». Após a morte de D. Manuel, a obra foi herdada por familiares de Augusta Vitória de Hohenzollern‑Sigmaringen (1890‑1966), sua esposa, sendo mais tarde posta à venda num leilão. A integração na coleção de Hubert Guerrand‑Hermès dá‑se neste contexto.

Embora muito ainda permaneça por desvendar, o retrato de D. José permite aludir a uma das ideias centrais do reinado de D. João V: a construção da imagem, mais ou menos ficcionada, de uma monarquia culta que via na arte e no conhecimento instrumentos de gravidade. Hoje, colocado nas paredes de uma instituição que certamente inspirou essa imagem de erudição, o jovem príncipe permanece como testemunho silencioso de um tempo em que o conhecimento era também espetáculo de prestígio e poder.

Figura 1 — Giorgio Domenico Duprà, retrato do príncipe D. José, 1726,
Universidade de Coimbra\

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