Metadata
Title
Da Beleza das Bibliotecas: o Projeto da Joanina Digital
Category
general
UUID
505c9b551a7049daa4db376f4f080de8
Source URL
https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/ribalta/da-beleza...
Parent URL
https://www.uc.pt/rualarga/
Crawl Time
2026-03-20T06:58:59+00:00
Rendered Raw Markdown

Da Beleza das Bibliotecas: o Projeto da Joanina Digital

Source: https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/ribalta/da-beleza-das-bibliotecas-o-projeto-joanina-digital/ Parent: https://www.uc.pt/rualarga/

PT

Rua Larga

Entrar

Revistas / Beleza / Oficina dos Saberes / Ribalta

Da Beleza das Bibliotecas: o Projeto da Joanina Digital

≈ 7 minutos de leitura

SG

Sara Grünhagen

DH/Universidade Aberta e CLP/BGUC, Universidade de Coimbra

A subjetiva noção de beleza talvez encontre algum consenso quando aplicada a espaços e objetos amplamente apreciados como são as bibliotecas e os livros, de que a Biblioteca Joanina e o seu acervo histórico constituem um exemplo notável. Não é difícil prestar um justo tributo à beleza arquitetónica dessa biblioteca centenária, tão‑pouco faltam publicações e elogios de conimbricenses, professores, estudantes e visitantes de passagem que já puderam contemplá‑la e frequentá‑la. Convém, porém, refletir sobre elementos menos evidentes que contribuem para a afirmação do que há de belo na Joanina, muito além do efeito cartão‑postal a que inevitavelmente se associou, como joia que, desde a sua conceção, coroa a cidade de Coimbra, conforme a inscrição colocada sobre o seu imponente pórtico: «Tal sede aos livros deu Coimbra Augusta / Que a fronte lhe coroa a biblioteca»1.

A digitalização das coleções da Biblioteca Joanina permite revisitar com um novo olhar a beleza singular dos próprios livros. Para isso tem contribuído o trabalho realizado no âmbito do Projeto Joanina Digital. Muito se falou já deste projeto, e alguns dos seus primeiros resultados foram apresentados recentemente na exposição «Joanina Digital: para além do ecrã», organizada pelo Grupo de Trabalho da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC). Não se pretende repetir aqui o que já foi dito nesse e noutros espaços, mas sim tentar responder, de maneira sucinta, à pergunta: afinal, o que há de belo na Joanina e, numa fase ainda muito preliminar, na futura Joanina Digital?

A propósito da biblioteca física, seria possível listar, entre tantos elementos, arcos triunfais, sumptuosos tetos pintados, com forte carga alegórica, mobiliário em madeiras nobres, expressivos letreiros latinos, como aquele já citado, coleções de livros encadernados, gabinetes individuais com mesas para utilizadores destros e esquerdinos, escadotes deslizantes e outras soluções belas e engenhosas para a época em que a biblioteca foi construída, entre 1716 e 1728, bem como dourados, frisos, entalhes e uma infinidade de ornamentos elaborados que saltam à vista.2 Cada apreciador da Joanina poderá produzir a sua própria listagem, alinhada com os seus gostos pessoais, sem descurar que o conjunto resultante foi, claramente, elaborado para produzir um efeito estético.

A esse respeito, recorde‑se o belo volume Storia della Bellezza, em que Umberto Eco reflete sobre as muitas formas pelas quais se almejou criar o belo, frequentemente associado, na tradição clássica, ao bom e, em não poucos projetos arquitetónicos, ao útil. Umberto Eco inclui na sua coleção de belas criações as bibliotecas parisienses desenhadas pelo famoso arquiteto Henri Labrouste, sobre as quais faz afirmações que, ao menos em parte, se poderiam aplicar à Biblioteca Joanina: «A beleza artística expressa‑se em cada um dos elementos da construção: até ao mais pequeno parafuso ou prego, não há material que não se transforme num objeto de arte de nova criação».3

Ainda não se resolveu a contento o enigma em torno da autoria arquitetónica da Biblioteca Joanina, cuja construção antecede em mais de um século as obras referidas de Labrouste, mas não há dúvidas quanto ao esforço coletivo empenhado para que essa obra também resultasse, à sua maneira e nos diferentes momentos da sua história, simultaneamente bela, boa e útil. E a história da Joanina, que, depois de concluída, permaneceu quase 50 anos à espera da constituição e organização do seu acervo,4 permite, enfim, afirmá-lo: uma biblioteca sem livros, por muito majestosa que seja, não é verdadeiramente bela, nem boa, nem útil para a comunidade que ela coroa.

A beleza da Biblioteca Joanina, e daquela que virá a ser a sua versão digital, reside também, portanto, no património cultural que ela alberga: nos seus livros antigos, produzidos em Portugal e no estrangeiro, nos seus exemplares raros e nas suas miscelâneas únicas, bem como nas coleções intrinsecamente associadas ao conhecimento produzido na Universidade de Coimbra (UC) e à própria cidade e às suas tipografias históricas.

Esta beleza é material, passível de definição e enumeração: sabe‑se que, no Piso Nobre da Joanina, se encontram colocados cerca de 30 mil volumes de diversas áreas do saber e em diversas línguas. Ao mesmo tempo, esta beleza tem uma dimensão imaterial, ligada aos saberes e à história que abarca. Nos tempos atuais, o desafio de preservar este património específico vai além da sua conservação para o presente e para as gerações futuras, passando igualmente pela disponibilização deste acervo.

Nesse contexto, pode dizer‑se que o Projeto Joanina Digital, uma parceria entre a UC e a Autoridade Literária de Sharjah, atua também em prol da beleza das coleções deste edifício com três séculos, herdeiro da antiga Casa da Livraria e integrado no conjunto Universidade de Coimbra, Alta e Sofia, classificado como Património Mundial da UNESCO.

O Projeto Joanina Digital alia preservação, investigação e desenvolvimento tecnológico e tem como objetivo digitalizar e tornar acessíveis, a qualquer visitante com ligação à Internet, as coleções do Piso Nobre da Biblioteca Joanina.

O futuro deste que é também um belo projeto pode, enfim, começar a ser vislumbrado na plataforma Joanina Digital, atualmente em desenvolvimento. Mais do que uma simples reprodução técnica dos livros, o projeto assenta num trabalho rigoroso de seleção, descrição, catalogação e preservação, que faz emergir aspetos relacionados com a materialidade das obras, as suas proveniências, as marcas de uso, as singularidades de cada exemplar e a história inscrita nos próprios objetos. Do trabalho em curso resultarão, ainda, um modelo de digitalização e uma infraestrutura para todas as coleções digitais da UC.

A plataforma pretende, assim, articular imagens de alta qualidade, metadados estruturados, processamento de dados por inteligência artificial e ferramentas de pesquisa, exploração e colaboração que permitam novas leituras, cruzamentos e investigações, preservando simultaneamente os objetos digitais a longo prazo. Nesta articulação entre tecnologia, curadoria e saber especializado, a Joanina Digital poderá vir a configurar uma outra forma de beleza, talvez menos imediata e menos espetacular do que a da biblioteca física, mas fundada na inteligibilidade do conjunto, na atenção ao detalhe e na possibilidade de fazer circular um património cultural que continuará a produzir conhecimento, agora noutro suporte e para um público muito mais vasto do que o da cidade de Coimbra.

1A inscrição «Hanc Augusta dedit libris Collimbria sedem, ut caput exornet bibliotheca suum» aparece gravada em pedra ao nível do entablamento, sob o escudo real e acima do pórtico. Tradução do original em latim recuperada de Fernando Taveira da Fonseca, «Contar como foi: sobre a construção da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra», in João Gouveia Monteiro et al. (coord.), Cinco Joias de Coimbra: Património Mundial da Humanidade. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022, p. 25.

2Para mais informações sobre a história e sobre os diversos detalhes que contribuem para que a Joanina seja a Joanina, ver A. E. Maia do Amaral (coord.), Os Livros em sua Ordem: Para a História da Biblioteca Geral da Universidade (antes de 1513-2013), Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, pp. 51‑58.

3No original: «La Bellezza artistica si esprime allora nei singoli elementi della costruzione: fino al più piccolo bullone o chiodo, non c’è materiale che non diventi un oggetto d’arte di nuova creazione» (Umberto Eco, Storia della Bellezza, Milano, Bompiani, 2005, p. 366).

4Para mais informações sobre esta época, remeto, novamente, a A. E. Maia do Amaral (coord.), Os Livros em sua Ordem: Para a História da Biblioteca Geral da Universidade (antes de 1513-2013), Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, pp. 59‑73.

Artigo seguinte

Esta edição

Download