# UC e Poesia
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# UC e Poesia - Dinâmicas de Criação e de Inovação
≈ 8 minutos de leitura
AF
Amílcar Falcão
Reitor da Universidade de Coimbra
A palavra *poíesis*, derivada do verbo grego *poiein*, que significa simplesmente «fazer» ou «construir», pode englobar, na sua riqueza semântica, qualquer forma de criação ou construção. Mais do que um conceito técnico ou erudito, poíesis exprime assim a essência da criatividade e da inovação, capacidades que têm marcado profundamente a história da Universidade de Coimbra (UC) ao longo dos séculos.
Neste ano de 2025, em que convergem efemérides tão importantes para Portugal, para a Lusofonia e, em específico, para a UC, como acontece com os 700 anos da morte d’el Rei D. Dinis, os 735 anos da fundação da Universidade, por ele criada, e os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, celebrar a poesia no âmbito da XXVII Semana Cultural constitui mais do que uma simples escolha temática: representa um público testemunho do compromisso da UC com a sua vocação de criar, transformar e inspirar. Com efeito, a capacidade da UC para se reinventar e inovar continuamente constitui a própria expressão viva de *poíesis*, mostrando como a experiência e a antevisão do futuro devem caminhar juntas na construção de um legado cultural e intelectual.
A UC tem muitas tradições que lhe são associadas. Hoje, são tradições, mas tempos houve em que foram inovações. E é por termos argumentos que fundamentam as nossas tradições que as devemos respeitar.
Algumas das nossas tradições resultaram de decisões extraordinariamente vanguardistas para a época. Entre muitas que poderia enumerar, não posso deixar de enaltecer o uso do traje académico como forma de diluir o estatuto social dos estudantes. Ao contrário do que vemos por outras paragens, o nosso traje académico não é colorido nem pretende chamar a atenção. É discreto, e tem uma capa que pertence ao traje não por fruto do acaso. No passado, muito estudantes usavam a capa como abrigo, não só da chuva, como manda a tradição, mas também e, especialmente, para aguentarem as noites mais frias que por vezes tinham de passar (chegou para muitos a funcionar como manta para a sua cama). Portanto, na UC, o traje académico foi uma marca de democraticidade que enviava sinais muito arrojados para a época. Hoje, o traje entra no lote das tradições, mas a inovação que esteve na sua origem não pode nem deve ser ignorada ou esquecida.
Testemunhei com mágoa a falta de consideração das autoridades (várias, diga-se) pelo significado que a Serenata Monumental tem para com a nossa comunidade académica. Usarem-se argumentos absurdos ou fazerem-se exigências de última hora para evitar uma tradição académica dá-me vergonha alheia. Insinuar-se que um momento alto da tradição académica pode ser no Largo da Sé Velha ou no parque de campismo também me dá vergonha alheia. Nada é imutável, mas deixem aos estudantes a tomada de decisões que mexem com o orgulho de pertencerem à nossa academia.
Qualquer dos exemplos que dei (traje académico e Serenata Monumental), além das suas origens e significado para a academia, constituem-se como parte integrante da classificação conferida pela Unesco (2013) da UC, Alta e Sofia como Património da Humanidade. E essa classificação, que apenas cinco universidades espalhadas pelo mundo se podem orgulhar de deter, somente no caso da UC envolve a componente material e imaterial. Portanto, adulterar tradições que fazem parte da classificação da Unesco não só é insensato, como pode fazer perigar a própria distinção que nos foi concedida.
Sinto-me muito à vontade para falar sobre estas temáticas. Devo ser, provavelmente, o reitor menos formal que a UC conheceu ao longo da sua história. A minha informalidade corresponde a uma adaptação aos novos tempos. O respeito e a autoridade não se impõem, conquistam-se. E em democracia, não se conquistam pela força, merecem-se pelo exemplo.
A UC pretende ser um exemplo vivo de uma instituição secular, sempre com os olhos postos no futuro. Temos a Ação Social mais forte e estruturada do país, e isso levou décadas a construir. Temos uma Associação Académica centenária, cuja voz e intervenção cívica só podem ser respeitadas e aplaudidas. Assumimos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) inscritos na Agenda 2030 das Nações Unidas, muito antes de se terem tornado numa moda. Cultivamos valores humanísticos por opção, sendo intolerantes com a intolerância. Não falamos de cidadania, igualdade e inclusão — pomo-la em prática.
A nossa dinâmica na investigação e na inovação demonstra que é possível respeitar o passado, cultivar valores humanísticos, e estar na vanguarda de muito do que melhor se faz em Portugal e no mundo. E os sinais são muito claros. Numa década, passámos de uma universidade dependente do financiamento nacional (Fundação para a Ciência e Tecnologia/FCT), para a universidade cujo financiamento competitivo está maioritariamente assente em projetos internacionais (basta consultar os números do Horizonte 2020 e do atual Horizonte Europa). Nessa mesma década, conseguimos que todas as áreas do saber (todas as Faculdades) passassem a ter financiamento europeu. Aumentámos de forma sustentada o envolvimento com o tecido empresarial (em todas as suas vertentes: estágios, projetos de I&D, e empregabilidade). Sabemos, hoje, o que são *royalties* provenientes das nossas patentes (depois de andarmos muito tempo sem ver qualquer retorno desse importante ativo da UC).
Quando um dia se fizer a história da pandemia (COVID 19), as surpresas serão mais do que muitas. Quando se dizia que o vírus estava longe (na China), já nós estávamos a preparar a sua presença no nosso país. Quando entendemos que era o momento, passámos ao regime não presencial (tendo sido enormes as pressões sofridas por o estarmos a fazer, não obstante dias depois o próprio país ter chegado a essa conclusão). Implementámos o *take-away* nas nossas cantinas (nunca as tendo fechado). Montámos o nosso laboratório de alta segurança para despistar os casos positivos (24 horas/dia 365 dias/ano). Fizemos rastreio à comunidade académica, tendo evitado muitos surtos. Ajudámos lares e escolas da região. Demos apoio aos nossos hospitais. Protegemos as pessoas até ao limite do possível.
Simultaneamente, procedemos a uma desmaterialização sem precedentes. Desenvolvemos *software* proprietário que nos permitiu enfrentar a pandemia e sair dela mais bem preparados para o futuro. Temos, hoje, opções que não tínhamos e que nos abrem portas a novos modelos de ensino- aprendizagem, incluindo o processo de avaliação. Tudo isso envolvendo um esforço coletivo notável.
Infelizmente, depois de uma pandemia, vieram os conflitos militares. Sabemos como começam, nunca sabemos como acabam. Aquilo que sabemos é que, efeitos colaterais à parte (ex. preço da energia, migrações, dificuldade na aquisição de bens e serviços, etc.), temos continuado a desempenhar aquele que deve ser o nosso papel: apelar à paz entre os povos, apoiar os refugiados, manter e criar pontes, usando para isso as nossas ferramentas (ensino, investigação e partilha de conhecimento).
Num contexto geopolítico tão instável, cumpre-nos manter o rumo, estar atentos ao que se passa e, dentro do possível, antecipar os cenários futuros e a forma como a UC se deve posicionar. Mostrámos ser capazes de o ter feito ao longo da nossa história. Seremos certamente capazes de o continuar a fazer. E é esta atitude que distingue as instituições dinâmicas e inovadoras das restantes.
Usemos como inspiração o nosso fundador, el Rei D. Dinis, o Rei-Poeta, e sejamos capazes de estar à altura de preservar e perpetuar o seu legado.
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- [A ciência pode ter poesia?](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-ciencia-pode-ter-poesia/)
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- [Internacionalização da UC: prioridades](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/internacionalizacao-da-uc-prioridades/)
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- [Inovação e Transferência de Conhecimento: A Universidade de Coimbra como Poeta de Parcerias Empresariais](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/inovacao-e-transferencia-de-conhecimento-a-universidade-de-coimbra-como-poeta-de-parcerias-empresariais/)
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