# A «questão poética» na era da inteligência natural
**Source**: https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-questao-poetica-na-era-da-inteligencia-natural/
**Parent**: https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/
PT
[Rua Larga](https://www.uc.pt/rualarga/)
[Entrar](https://apps.uc.pt/)
/ [Revistas](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/) / [Poesia](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/) / [Reitoria em Movimento](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/)
# A «questão poética» na era da inteligência natural
## Temos agora novas e poderosas ferramentas, mas os problemas são antigos como a Humanidade.
≈ 6 minutos de leitura
DL
Delfim Leão
Vice-Reitor para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Universidade de Coimbra
Pese embora a ampla riqueza polissémica do conceito de Poesia, o termo possui, na sua origem, uma dimensão humilde, tendo sido cunhado do verbo que significa simplesmente «fazer», «construir» (*poiein*). Por esse motivo, a palavra poíesis designa, antes de mais, todo o tipo de «construção» ou «criação», ainda que se tenha vindo a especializar, já na Antiguidade e sobretudo desde Platão e Aristóteles, como forma de designar um produto intelectual elevado e definidor do caráter.
Num ano em que conflui a celebração de efemérides particularmente significativas para Portugal, para a Lusofonia e sobretudo para a Universidade de Coimbra (UC) — os 700 anos da morte do Rei D. Dinis, os 735 anos da fundação da primeira universidade portuguesa pelo mesmo soberano e ainda os 500 anos do nascimento de Luís de Camões —, a opção por eleger a Poesia como tema da XXVII Semana Cultural tornou-se, assim, quase um imperativo cultural e ético.
Antes de mais, por ser D. Dinis o Rei-Poeta, título que se justifica não apenas pelo contributo que deu à literatura, mas pela tenacidade criativa e construtora, que são afinal conceitos cobertos igualmente pelo termo *poietes* ou «poeta». Em seguida, porque desse impulso criador decorre a fundação da UC, também ela um ato poético em construção ininterrupta, no qual cada geração continua a inscrever renovados contributos à arte, à cultura e à ciência.
Finalmente, porque a celebração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, cujo arranque oficial ocorreu em Coimbra, no dia 10 de junho de 2024, continuará a ser evocada com iniciativas culturais e científicas, sublinhando o papel unificador que a língua de Camões assumiria nos territórios hoje pertencentes à comunidade lusófona, bem como o contributo fundamental da UC para a promoção e difusão da língua e cultura portuguesas.
Evocar a *Poesia* significa também, de forma direta ou indireta, convocar o primeiro *monumentum* literário por excelência da cultura ocidental: os Poemas Homéricos. Apesar da forma unânime como o génio do poeta arquetípico foi reconhecido ao longo dos tempos, é também certo que, já desde a Antiguidade clássica, vem sendo alimentada uma famosa «Questão Homérica», que continua a ser animada até aos nossos dias e a partir da qual uma torrente imensa de argumentos e de teorias continua a fluir.
Saber se o Homero histórico existiu de facto e, em caso afirmativo, quando e onde terá vivido; se foi um único compositor que criou a *Ilíada* e a *Odisseia* ou se, pelo contrário, estas obras são produto de vários poetas de diferentes períodos; se a criação destas epopeias assenta na técnica de composição oral ou se beneficia já da transição para a escrita; se estes poemas possuem uma unidade consistente ou se as incoerências, repetições e transições abruptas, que por vezes os marcam, sugerem uma compilação a partir de diferentes fontes; se o fundo histórico que retratam é coerente e fiável ou se resulta da aglutinação de referentes arqueológicos e linguísticos separados por séculos de distância.
A lista poderia continuar, mas, no fundo, as dúvidas podem resumir-se a uma grande questão de base: devem a *Ilíada* e a *Odisseia* ser vistas como obra de um só génio criativo ou como o culminar de uma longa tradição cultural? Por outras palavras, exprimem a inspiração excecional de um talento solitário ou resultam antes de uma criação coletiva e em contínua construção?
É este um longo e antigo debate, que avança já para o terceiro milénio, fruto de um tempo marcado pelas incertezas da «inteligência natural». Comparadas com a *longue durée* da homérica discussão, as dúvidas à volta do impacto da «inteligência artificial» acabam por ser uma juvenil pendência, que apenas agora ensaia os primeiros passos. Ainda assim, não deixa de ser impressionante a semelhança que apresenta com a discussão à volta do grande vate grego, dos seus olhos gastos e do semblante carregado por múltiplas indagações.
Boa parte das dúvidas atrás referidas perderiam a sua razão de ser, se «Homero» (chamemos-lhe assim) referisse — em algum momento da obra que lhe vem atribuída — o seu nome, a proveniência geográfica, a profissão, os mestres ou a escola que tivera. Mas não, ao autor da *Ilíada* apenas interessa empenhar-se na descrição dos efeitos nefastos da ira de Aquiles e, ao da *Odisseia*, em acompanhar os errores de Ulisses. Ou seja, Homero convive bem com o anonimato e não precisa de créditos de autor.
Por vezes, também «alucina» — como se agora avisa que faz o ChatGPT e outros modelos que imitam o processamento da linguagem natural —, descuidos esses que o poeta romano Horácio já sublinhava com fino humor, ao comentar que «de vez em quando, bom Homero passa pelas brasas» (Arte Poética, 359: *quandoque bonus dormitat Homerus*). E se é certo que tinha a preocupação de identificar as suas fontes privilegiadas de informação (a «deusa» e a «musa» referidas na abertura dos dois poemas), fá-lo com uma liberdade literária que deixa em aberto todo o tipo de interpretações.
No fundo, a grande «Questão Homérica» não se prende tanto com a resolução de um só mistério obscuro, mas antes com a compreensão da própria interação entre tradição, criatividade e transmissão cultural, e ainda com a forma como nos posicionamos perante elas.
[Artigo seguinte](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/um-balanco/)
[Esta edição](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/)
[Download](https://www.uc.pt/site/assets/files/2092790/rl_59_web-1.pdf)
- [Editorial](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/editorial/)
- [UC e Poesia - Dinâmicas de Criação e de Inovação](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/editorial/uc-e-poesia/)
- [Reitoria em Movimento](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/)
- [A «questão poética» na era da inteligência natural](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-questao-poetica-na-era-da-inteligencia-natural/)
- [Um balanço](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/um-balanco/)
- [A ciência pode ter poesia?](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-ciencia-pode-ter-poesia/)
- [Universidade de Coimbra, Alta e Sofia — Salvaguarda e Autenticidade](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/universidade-de-coimbra-alta-e-sofia-salvaguarda-e-autenticidade/)
- [Poíesis e Ensino-Aprendizagem: a Revelação e a Criação de Sentidos](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/poiesis-e-ensino-aprendizagem-a-revelacao-e-a-criacao-de-sentidos/)
- [Internacionalização da UC: prioridades](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/internacionalizacao-da-uc-prioridades/)
- [Ode à Transformação: a Universidade enquanto Agente de Mudança](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/ode-a-transformacao-a-universidade-enquanto-agente-de-mudanca/)
- [Inovação e Transferência de Conhecimento: A Universidade de Coimbra como Poeta de Parcerias Empresariais](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/inovacao-e-transferencia-de-conhecimento-a-universidade-de-coimbra-como-poeta-de-parcerias-empresariais/)
- [A poesia como ato de resistência](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-poesia-como-ato-de-resistencia/)
- [Universidade de Coimbra: Universidade Empreendedora](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/universidade-de-coimbra-universidade-empreendedora/)
- [A Poesia dos Jogos: Transcendência, Arte e Valor na Experiência Olímpica e Paralímpica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-poesia-dos-jogos-transcendencia-arte-e-valor-na-experiencia-olimpica-e-paralimpica/)
- [Oficina dos saberes](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/)
- [Retrovisor](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/)
- [Santa Isabel, Consorte do Rei Trovador](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/santa-isabel-consorte-do-rei-trovador/)
- [Camões Celebrado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/camoes-celebrado/)
- [Anseio de Plenitude e Horizonte de Paz Universal em Luís de Camões](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/anseio-de-plenitude-e-horizonte-de-paz-universal-em-luis-de-camoes/)
- [A Voz Trágica de Carlos Paredes na Evocação do seu Centenário: Poíesis e Significado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/a-voz-tragica-de-carlos-paredes-na-evocacao-do-seu-centenario-poiesis-e-significado/)
- [O Legado Pessoa](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/o-legado-pessoa/)
- [Ribalta](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/)
- [Applausos da Vniversidade a El Rey N. S. D. Ioão IIII](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/applausos-da-vniversidade-a-el-rey-n-s-d-ioao-iiii/)
- [Sobre (ou sob) o Poetry Slam](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/sobre-ou-sob-o-poetry-slam/)
- [Coimbra: em cada Esquina, um Poeta](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/coimbra-em-cada-esquina-um-poeta/)
- [Ciência Refletida](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/)
- [Projeto Europeu CONVIVIUM: Património Alimentar, um Novo Ativo do Programa New European Bauhaus](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/projeto-europeu-convivium-patrimonio-alimentar-um-novo-ativo-do-programa-new-european-bauhaus/)
- [BIOBASED2UC, um Projeto para a Universidade de Coimbra: Poíesis e Práxis lado a lado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/bibiobased2uc-um-projeto-para-a-universidade-de-coimbra-poiesis-e-praxis-lado-a-lado/)
- [Ágora](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/agora/)
- [Sem título](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/agora/sem-titulo/)
- [Patrimónios](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/patrimonios/)
- [O Rosto de um Rei](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/patrimonios/o-rosto-de-um-rei/)
- [Ao largo](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/)
- [Crónica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/cronica/)
- [Camões, Poeta Internacional](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/cronica/camoes-poeta-internacional/)
- [Criação Literária](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/criacao-literaria/)
- [Poema de.pen.durar](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/criacao-literaria/a-voz-de-cada-era-a-sua-voz/)
- [Lugar dos Livros](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/)
- [Prémio Joaquim de Carvalho 2024](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/premio-joaquim-de-carvalho-2024/)
- [Destaques](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/livros-destaques/)