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Ruas que Ficam nas Pessoas. A Alta dos Salatinas
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Ruas que Ficam nas Pessoas. A Alta dos Salatinas

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Ruas que Ficam nas Pessoas. A Alta dos Salatinas

«Esta Coimbra formosa, De seus filhos orgulhosa, Ter um risonho porvir! E há-de esta voz, exprimindo Quanto hoje minha alma sente, Bradar-vos, ansiosa e crente: Não descansar — progredir!» Amélia Janny, poetisa salatina (1842-1914)

≈ 8 minutos de leitura

FQ

Filipa Queiroz

Autora do documentário Salatinas — Histórias da Velha Alta de Coimbra (2025)

RV

Rafael Vieira

Autor do documentário Salatinas — Histórias da Velha Alta de Coimbra (2025)

TC

Tiago Cerveira

Autor do documentário Salatinas — Histórias da Velha Alta de Coimbra (2025)

Quando Amélia Janny escreveu este poema, a Alta de Coimbra fervilhava de actividade. Havia hospital, escola, igrejas, esquadra da polícia, costureiras, sapateiros, farmácia, tabernas e mercearias. «Havia tudo», como diz Suzana Queiroz, a primeira salatina que filmámos no sítio onde nasceu e onde ainda mora aos 96. Foi pelo brilho nos olhos dela e de outras salatinas ao lembrarem a Alta anterior a 1943 que decidimos fazer o documentário. Pela captação desta beleza que vai além do enquadramento, do resgate da memória que a produz e da voz das nossas protagonistas poder resultar nalguma justiça.

Quando as primas Maria Isabel e Maria de Lourdes moravam no casario alto e esguio da Rua dos Militares havia carências, como falta de aquecimento e saneamento básico, mas sentiam o privilégio de ser vizinhas da «fachada linda, linda» da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC) e da Associação Académica. Adoravam brincar no Leão da Alameda de Camões, conheciam toda a vizinhança e faziam favores aos mais vulneráveis, como os doentes do Hospital dos Lázaros. Luísa Bronze ouvia a rádio na taberna do pai, mas fora de portas eram os barbeiros que dedilhavam guitarras, como Flávio Rodrigues. Aprendiam‑se cedo lições de bondade, entre‑ajuda e até rebeldia. Rodrigues Costa nunca mais se esqueceu da tareia que levou por ter ido às Fogueiras. Tinha orgulho em ser dali, de onde a Canção de Coimbra embalava o coração das tricanas que já só conhecemos dos postais e que voltavam do Mondego carregadas com as trouxas dos estudantes e das famílias privilegiadas que outra Maria gostava de ficar a ver passar à janela. «Ganhava‑se amor ao sítio onde se morava, sabe?», diz Rodrigues Costa.

António de Oliveira Salazar também morou na Alta. Mudou‑se em pleno ano da implantação da República, 1910. Estudou Direito, envolveu‑se na política e 27 anos depois, já presidente do Conselho do Estado Novo, assume publicamente que pretende avançar com a renovação da Universidade e que esta permanece‑ria na colina sagrada de Coimbra, espaço simbólico na sua génese. Deixa claro que tem um ideal de beleza para a cidade, uma visão política e pedagógica específica, alinhada com discursos de vanguarda educativa e com uma lógica higienista então em circulação na Europa.

Para compreender este processo é essencial situá‑lo no tempo. Ter em conta os primeiros estudos urbanísticos em 1938‑39 e a elaboração do plano de Cottinelli Telmo em 1940. O Estado Novo descrevia a Alta dos salatinas como feia, inestética, insalubre e indigna. A retórica não lhe era exclusiva, seguia tendências internacionais no pós‑Haussmann, da grande transformação da Paris no século XIX, sob o governo de Napoleão III. A difusão internacional do modelo resultou na abertura de grandes eixos, embelezamento monumental e reformas higienistas em centros históricos de cidades como Viena, Barcelona e Roma. Em Lisboa, no Martim Moniz, e no Porto, nos Aliados e na Sé, o mesmo discurso justificou a excisão de quarteirões. Em Coimbra, esta busca pelo «belo» foi instrumentalizada politicamente para legitimar a destruição de cerca de dez hectares do centro histórico da cidade, sensivelmente um terço da área intramuros. O arranque oficial das demolições foi em 1943 e, ao longo de 30 anos, foram demolidos 255 edifícios, muitos de grande valor patrimonial. Foram deslocadas três mil pessoas, 6% da cidade, segundo o reitor de então, Maximino Correia. Transpondo para a actualidade, tal deslocação equivaleria a deslocar cerca de 6500 pessoas, um cenário impensável em democracia.

Fotografias: Autor desconhecido

Da operação resultou outra forma de beleza, monumental e simétrica. O ideal estético tornou‑se argumento de poder, justificando o apagamento de tudo o que não correspondia à visão de cidade universitária defendida pelo regime. O Estado não se percebia a si próprio como agente de dano. Pelo contrário, acreditava estar a «corrigir» a cidade, agindo a partir de um lugar institucional que se julgava benevolente.

A retórica era, em certa medida, paternalista:\ «Estamos a fazer‑vos bem, não o reconhecem?». Toda a operação se sustentava numa narrativa inicial que opunha a «velha Alta» à cidade universitária idealizada. A demolição foi um acto político e estético de violência, a procura de uma pureza visual e espacial, obtida à custa da remoção de uma comunidade fragilizada. O sentido de pertença perdeu‑se e a comunidade foi desenraizada. Desapareceu um bairro.

Quando era dos salatinas, a Alta até podia ser descrita por alguns como desarmoniosa, mas era tecido vivo da cidade, composto por camadas de funções e relações sociais. O espaço público era partilhado, vivido e sonoro. As calçadas guardavam passos e conversas entre janelas, a roupa estendida coloria as ruas, os cheiros da comida cruzavam‑se com pregões e risos. Uma beleza orgânica, multifuncional, própria das cidades densas e históricas. Uma beleza invisível a um olhar técnico e burocrático, distante dos gabinetes em Lisboa.

Talvez não tenha sido tão «risonho» o «porvir» de Janny. Já não se fazem poemas, repetem‑se as canções, recriam‑se as festividades entre paredes frias. Da Alta desaparecida restam fragmentos, memórias, fotografias e testemunhos que se vão extinguindo. Há uma beleza melancólica associada ao que se perdeu. A comunidade que foi deslocada para os novos bairros de Celas, Fonte do Castanheiro e Norton de Matos transportou consigo hábitos e redes de apoio.

Esta «renovação» da Universidade parou em 1975 , com a inauguração do edifício de Física e Química, já com o país em liberdade. Ficou incompleta mas, em 2013, foi inscrita como Património Mundial da UNESCO, juntamente com a Rua da Sofía. Um sítio de valor universal excecional, agora protegido e diariamente procurado e admirado por milhares de visitantes do mundo inteiro. À noite silencioso, sem vida, como qualquer museu.

Olhar hoje para a colina da Universidade implica distanciamento e, também, reconciliação. A beleza contemporânea emerge do inacabado, das misturas, das cicatrizes visíveis e invisíveis que persistem no território e na memória. A beleza já não está apenas no que se vê, mas também no que se consegue imaginar. No que resistiu à destruição, nas fissuras onde ainda ecoa a vida anterior. É uma beleza póstuma, que nasce da ausência, como se o corpo da cidade ainda respirasse sob as pedras. O chão reconstruído guarda o murmúrio do que foi arrancado. A ideia aproxima‑se das reflexões de Georg Simmel e Walter Benjamin sobre a ruína e a aura perdida das obras singulares.

Pode a beleza ser construída sobre mágoa, sofrimento e exclusão? Mas de que beleza falamos quando evocamos a Alta de outrora? Da beleza no retorno ou da beleza da memória? Talvez a beleza resida hoje no acto de reconhecer o que foi apagado e de dar forma a uma narrativa comum em que a ferida não é escondida, mas integrada.

Entre a cidade que se dizia feia e a cidade que se quis bela, nenhuma das versões é absoluta, contêm ambas a sua verdade. A cidade actual é um palimpsesto de camadas e cicatrizes. Não se pode esquecer os salatinas, os de então e os de agora. O filme\ «Salatinas» é um testemunho sensível dessa reconstrução da memória visual e humana da Velha Alta.

Este texto foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico, por vontade dos autores.

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