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A Orquestra Académica da Universidade de Coimbra e os Seus (quase) Dez Anos de Vida
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A Orquestra Académica da Universidade de Coimbra e os Seus (quase) Dez Anos de Vida

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A Orquestra Académica da Universidade de Coimbra e os Seus (quase) Dez Anos de Vida

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AG

André Granjo

Maestro e Diretor Artístico da OAUC

Nascida de uma parceria entre a Tuna Académica da Universidade de Coimbra (TAUC) e a Reitoria da Universidade de Coimbra (UC), assinada a 15 de junho de 2016, a Orquestra Académica da Universidade de Coimbra (OAUC) prepara‑se este ano para celebrar o seu décimo aniversário.

Criada como um espaço para o desenvolvimento da prática de repertório sinfónico, a OAUC constitui‑se como um corpo musical que congrega atuais, antigos e futuros estudantes, estando também aberta à participação de docentes e não‑docentes da nossa universidade. O objetivo principal é criar as condições para que qualquer membro desta comunidade académica alargada que possua os conhecimentos técnicos e artísticos associados à prática de um instrumento musical possa continuar a fazer uso desses conhecimentos, mantendo-se artística e culturalmente ativo no seio da Academia.

A OAUC não nasce de um vazio, é antes uma expansão da atividade centenária da TAUC. Tão‑pouco é a primeira experiência dentro da Academia de um agrupamento orquestral mais vocacionado para a prática da música dita clássica ou erudita. Em artigo anterior na Rua Larga (n.º 48), abordei um pouco do que foi este percurso até 2016.

Aqui chegados, nas vésperas de celebrar dez anos de existência, proponho um exercício de retrospetiva, centrado no que tem sido a prática de repertório da OAUC, a atividade de investigação e edição de repertório orquestral que temos promovido, como tem sido recebida a OAUC pela academia e pela cidade, qual a dimensão da participação de instrumentistas ao longo do tempo, que concertos e outras atividades têm sido desenvolvidas. A finalizar, apresentarei algumas das ideias do que temos ainda que trabalhar e os desafios mais imediatos.

Quem acompanha o trabalho da OAUC já se apercebeu, certamente, da aposta que fazemos na música sinfónica de compositores portugueses. Esta é, primeiramente, o resultado da minha preferência pessoal e artística enquanto responsável da orquestra, preferência esta que não nasce, de todo, de um qualquer ímpeto nacionalista.

Esta aposta nasce, por um lado, de uma convicção artística e cultural que sempre assumi: existe muito boa música escrita para orquestra no nosso país e, infelizmente, é muito pouco divulgada. Por outro lado, há uma razão muito pragmática que ajuda a sustentar ainda mais esta aposta: a OAUC não é uma orquestra profissional, é uma orquestra muito amadora, cuja capacidade técnica oscila consoante a disponibilidade de instrumentistas para cada um dos seus concertos. Por esta razão, ao apostar na música portuguesa, menos conhecida, esquivamo‑nos de forma airosa a comparações fáceis, mas injustas, internas e externas, a que estaríamos expostos se executássemos o repertório sinfónico mais tradicional. Como já disse, por duas vezes, em tom de brincadeira: «Procuramos tocar o repertório que a nossa orquestra rival, que é naturalmente a Filarmónica de Berlim, não interpreta regularmente». A escolha de um programa para um concerto da OAUC é, então, um exercício de equilíbrio entre a vontade de tocar obras de que gostamos, ou que queremos dar a conhecer, e as capacidades técnicas e artísticas da orquestra. Apostar em tocar repertório apenas porque achamos interessante, ou porque ouvimos num disco e gostamos, levar‑nos‑ia facilmente a realizar concertos de menor qualidade musical e diminuiria, por certo, a relevância cultural que uma orquestra amadora como esta pode ter.

Em momentos de retrospetiva, é comum fazer‑se uma espécie de contabilidade que permita perceber o caminho que estamos a traçar e ajustar as expectativas.

Desde o concerto de estreia, no dia 18 de setembro de 2016, a OAUC realizou 26 concertos. No total apresentaram‑se em palco cerca de 1400 músicos e, fazendo um pequeno e rude exercício de estatística, podemos afirmar que, em média, cada elemento da orquestra fez entre três e quatro concertos, uma vez que foi possível identificar cerca de 400 inscrições discretas.

No que diz respeito à prática de repertório, a OAUC interpretou 94 obras, 46 das quais escritas por compositores portugueses. Realizou três encomendas:

Além das encomendas, a nossa atividade tem passado também pela promoção da pesquisa e edição crítica de repertório que se encontrava esquecido ou apenas em suporte manuscrito. São exemplo deste trabalho:

Resultado natural deste trabalho de recuperação de repertório e das encomendas, a OAUC realizou a estreia absoluta de oito obras de compositores portugueses, a que acresce a estreia europeia de três obras de compositores norte‑americanos.\ Tem havido, também, uma preocupação de criar a oportunidade aos elementos da orquestra de trabalharem com profissionais de reconhecido mérito artístico como forma de motivar e potenciar o seu trabalho. Nesse sentido, a orquestra atuou sob a direção dos maestros convidados Tiago Oliveira, Jan Wierzba e Diogo Costa, e pôde ainda contar com a enriquecedora prestação de solistas profissionais. Os que connosco colaboraram têm comum o facto de, em algum momento da sua carreira, terem estado ligados à UC ou a agrupamentos musicais da Academia:

Ainda no âmbito das parcerias, não podemos deixar de mencionar e agradecer a colaboração empenhada dos nossos colegas do Orfeon Académico de Coimbra e do Coro Misto da UC, que enriqueceram enormemente vários dos nossos concertos.

Um dos momentos relevantes da nossa atividade nestes dez anos de vida foi a participação no festival europeu de orquestras académicas que decorreu em julho de 2022, na cidade francesa de Toulouse, e em que o nosso concerto despertou grande curiosidade por termos optado por interpretar apenas repertório português, desconhecido para todo o numeroso público que acorreu ao nosso concerto.

Abordando um pouco a questão do público, podemos afirmar que o nosso trabalho tem sido apreciado e valorizado, uma vez que temos conseguido uma afluência generosa e consistente nos nossos concertos. Não podemos deixar de registar que apenas em duas ou três ocasiões pudemos contar com uma plateia verdadeiramente cheia no Teatro Académico de Gil Vicente, espaço onde ocorreram quase todos os nossos concertos. Este é, sem dúvida, um dos desafios que temos pela frente: conseguir atrair mais público e, sobretudo, mais jovem. Precisamos de ser mais eficazes na divulgação do nosso trabalho junto da comunidade estudantil e até da comunidade docente. Não querendo fazer qualquer tipo de julgamento ou de crítica, enquanto docente do ensino superior que também sou, entristece‑me notar que a mesma gadora maioria dos colegas não têm ainda tido o prazer de apreciar o trabalho que os seus alunos realizam fora do estrito cumprimento dos seus deveres curriculares — esta nota estende-se não só à OAUC como a todos os organismos culturais da nossa academia. É um convite (de forma alguma, um juízo)!

Por fim, ao completar dez anos de vida, a OAUC tem pela frente um grande desafio, uma vez que tem a seu cargo a organização do Festival Europeu de Orquestras Académicas (ESOF 2026), entre 26 e 29 de março. Fruto da experiência vivida em Toulouse, em 2022, nasceu a vontade de trazer este evento artístico até à nossa cidade, recebendo cinco orquestras congéneres do espaço europeu. É o maior desafio organizativo que a OAUC teve até hoje e um dos maiores desafios também para a TAUC, enquanto nossa «patrona».

Termino com uma aclaração em jeito de agradecimento: quem fez e faz a gestão prática, executiva, de tudo quanto descrevi acima são jovens alunos desta Universidade. Não sou eu, não é a Reitoria: são jovens empenhados que tiram do seu tempo para manter vivo este projeto. A eles, enquanto diretor artístico, o meu mais penhorado agradecimento.

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