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Figuras Alegóricas e Palavras Aladas: os Tetos da Biblioteca Joanina
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Figuras Alegóricas e Palavras Aladas: os Tetos da Biblioteca Joanina

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Figuras Alegóricas e Palavras Aladas: os Tetos da Biblioteca Joanina

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Fernando Taveira da Fonseca

Professor emérito do Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes, Universidade de Coimbra

No dia 22 de junho de 1723, na «cidade de Coimbra e nos paços da universidade della aonde sam as Escolas Maiores, dentro na casa do conselho e Mesa da Fazenda», foi celebrado um contrato com António Simões Ribeiro e Vicente Nunes, «mestres pintores e moradores na cidade de Lisboa, na freguesia de S. Nicolau», os quais «estavam ajustados com esta universidade para haver de lhe pintarem as tres casas da livraria, a saber o teto e cimalha, cada casa pelo preço de seiscentos mil réis». Da parte da Universidade eram outorgantes o reitor, Francisco Carneiro de Figueiroa, e os quatro deputados grandes — todos professores seniores, um de cada faculdade — que compunham a mesa da fazenda, aos quais, em conjunto, pertencia «todo o bom governo e adeministrasam de todos os bens e rendas». Estavam no «despacho ordinario» e a escritura foi exarada pelo escrivão da fazenda que tinha prerrogativa de notário público. Cláusula relevante era a de que deveriam pintar «cada uma das casas de sua planta diferente, na forma que apresentaram pelos riscos, os quais se aprovaram»; e não menos importante era a exigência de «ser a dita pintura de perspetiva e feita com o maior primor da arte que hoje é o imtento da universidade e se declarou aos sobreditos na Corte, antes de partirem, como na universidade […] de forma que fique com toda a perfeiçam e galhardia».

Importava pôr em destaque o protagonismo dos órgãos governativos da universidade que fazem a encomenda artística e determinam os parâmetros da sua execução, aprovam o plano da obra e assumem plenamente os encargos inerentes: o risco — que seria pago separadamente por «preço justo» — os encargos da deslocação dos artífices, o conjunto da mão‑de‑obra e materiais (neste caso, sob forma de empreitada); e que dispõem de autoridade para fixar legalmente, de forma autónoma, as cláusulas e penalidades contratuais. Membros de uma elite intelectual, versados no Direito e na Cultura Romana (e Clássica, em geral), determinaram igualmente o conteúdo temático da obra que encomendaram: ao aprovarem o risco, tê‑lo‑ão feito porque correspondia ao seu intento. Parece não haver suporte documental para supor a intervenção de qualquer outra entidade ou personagem (a não ser que tal intervenção tivesse sido também encomendada).

A observação do conjunto pictórico dos tetos da Biblioteca Joanina — que é todo um programa delineado através de figuras alegóricas e ilustrado por palavras escolhidas — exige do visitante uma modificação da postura: terá de abandonar (e temporariamente perder) a perspetiva inicial — que lhe proporcionava a visão da profundidade das três salas, em sequência, culminando no retábulo que ostenta o retrato do rei — para elevar o olhar, verticalmente; terá ainda de deslocar‑se para o centro da nave tripartida, porque aí está o fulcro de toda a composição: é a Universitas (segunda sala) que irradia sentido sobre a Bibliotecha, como instrumento seu que é (primeira sala) e se realiza no conjunto dos saberes (Enciclopedia, terceira sala).

A Universitas é apresentada como alma mater — a mãe que alimenta e cria e, ao mesmo tempo, digna de toda a veneração — através de uma figura feminina de cujos seios jorra o leite em abundância. A rodeá‑la, alguns putti alados, sobraçando pequenas ânforas que derramam água, um deles segurando uma filactera, onde se lê: claudite iam rivos pueri sat. prata biberunt (fechai as represas, meninos, os prados já estão saciados). Trata‑se do derradeiro verso da terceira écloga de Virgílio (70‑19 a. C.) que, no contexto original, apenas se destina a dar por concluída uma disputa poética entre pastores (Menalcas e Dametas), cada um louvando o seu rebanho e os seus amores, e que um árbitro (Palémon) declara saldar‑se num empate. Aqui, contudo, veicula a ideia de abundância e plenitude, de inteira realização. De algum modo, é um verso charneira, já que no primeiro da quarta écloga há a proposta de tratar assuntos mais importantes — Sicelides musae, paulo maiora canamus (Musas da Sicília, elevemos um pouco os nossos cantos). O uso do comparativo (paulo maiora) parece pressupor uma referência anterior. A exortação desenvolve‑se, a seguir, no prenúncio de uma «era messiânica»:

«Chegou já a última hora dos oráculos de Cumas […] Eis que volta já a Virgem, volta o reino de Saturno». Iremos encontrar a Sibila de Cumas e a Virgem um pouco mais adiante.

Baste‑nos, por agora, atentar brevemente nas figuras que acompanham a Universitas: Virtus (virtude e também coragem); Honor (honra ou dignidade); Fortuna (que é também divindade, com os seus atributos típicos — a roda, que ora se eleva ora desce, e a dupla face — símbolos da sua variabilidade), Fama (glória, reputação), voz pública sonoramente disseminada pela trombeta. Além destas entidades simbólicas (como repositório de valores), nomes maiores da literatura e da cultura romanas — não, porém, da cultura grega — aparecem como figuras tutelares, súmula dos exemplos a seguir pelos estudiosos: Cícero (106‑43 a. C.), modelo da eloquência forense; Virgílio (70‑19 a. C.), o poeta heróico da Eneida, celebrado também pelas Bucólicas e pelas Geórgicas; Ovídio, autor das Metamorfoses, o carmen perpetuum (no conteúdo e na perenidade); Séneca (4 a. C.‑65 d. C) o austero filósofo, corifeu do estoicismo.

A Bibliotheca serve a Universitas: a figura feminina que a simboliza (bibliothecae imago) é retratada numa dupla função: coloca um livro numa estante, onde já há alguns — guarda e protege —, ao mesmo tempo que, com a mão direita, segura outro, aberto à visão de todos. As palavras da inscrição sobre a porta de entrada dizem isso mesmo: panduntur cunctis, a todos se abre este nobre edifício (palatia) honrado pelos livros (exculta libris). Entra, consulta os autores e serás douto. Para o teu estudo, há uma lei obrigatória (lex et norma tenenda est): que a mente recolha e analise com diligência e a pena anote (mens legat, observet sedula; penna notet). O vasto horizonte que se oferece à difusão do saber (o livro aberto) é constituído pelos quatro continentes — os quatro cantos do mundo —, também eles representados por figuras femininas: a Ásia, com um turíbulo de incenso perfumado; a África, segurando o que parece ser um objeto em ébano; a América, empunhando arco e flecha; a Europa, ladeada pela cornucópia da abundância e fertilidade. As gradações cromáticas destas figuras repercutem‑se nos putti, alguns em grande azáfama — carregando livros, lendo, ajudando a colocar na estante —, outros, quase etéreos, espreitando de entre as nuvens, confundindo‑se com elas. Um dos primeiros segura a fita onde as palavras tentam compaginar a imprescindível solidez do conteúdo dos livros com o esplendor da decoração que os enquadra: felices ornent haec instrumenta libellos — que todo este aparato sirva de ornamento a livros fecundos.

É na terceira sala que se desdobra a panóplia dos saberes. A epígrafe — Enciclopedia — radica na enkyklios paideia, o sistema educativo com origem na Grécia clássica, que se prolongou pelo período helenístico, estendendo‑se geograficamente por um vasto espaço a oriente e incluindo o Egipto e a Magna Grécia. Sistema esse que se pretendia completo e redondo: incluía a Gramática, a Música, a Ginástica, a Retórica, a Matemática, a Geografia, a História Natural, a Filosofia. Foi adotado pelo cristianismo que lhe acrescentou — como coroamento — a Teologia. Os dizeres que se exibem na filactera são adaptados de um magnífico passo da Eneida, livro VI, vv. 42‑155 (de que vale a pena esboçar o enredo, seguindo a tradução autorizada de Maria Helena da Rocha Pereira): depois de larga e tormentosa viagem, aportara Eneias à península itálica («e agora, enfim, alcançámos da Itália as fugitivas plagas» — VI, 61). Dirigira‑se a Cumas (a primeira colónia da Magna Grécia na Itália continental, fundada no século VIII a. C., para pedir a proteção da Sibila (aquela que alcançara dos deuses tantos anos de vida quantos os grãos de um punhado de areia) para a sua empresa de fixar os troianos no Lácio. A profetiza, possuída em transe por Apolo, antevê um futuro sombrio («guerras, hórridas guerras, e o Tibre cheio de espuma de sangue», VI, 84‑85), mas incita Eneias a ousar. Este mostra‑se confiante — «nenhuma face do labor, ó virgem, me surge como coisa nova e inesperada» (VI, 98‑99) — e formula, então, outro pedido: «que me seja dado ir à vista e à presença de meu pai querido» (VI, 109). A Sibila adverte‑o: «É fácil descer ao Averno […] mas voltar para trás […] esse é o trabalho, esse o esforço (hoc opus, hic labor est)». Considera‑o, contudo, «semente de sangue divino» e ensina‑lhe um expediente que lhe facilitará o regresso, apenas acessível aos predestinados: colher um «ramo de ouro» [de visco branco?] de uma árvore escondida no seio de um denso bosque, rodeado pelo rio dos condenados, o Cocito: «Foi este o presente que a bela Prosérpina [cativa de Plutão no mundo inferior] deu ordem de lhe levar».

É neste contexto que surgem os versos: Sed non ante datur telluris operta subire, auricomos quam quis decerpserit arbore fetus («Mas não é dado ir às aberturas da terra» [ou, na versão de Carlos André, «a ninguém é concedido aceder aos mistérios telúricos»] «antes de cortar da árvore o aurícomo rebento», VI, 140‑141). A adaptação transforma a negativa em afirmação e convida a uma translação do sentido: Dabitur telluris operta subire auricomos si quis decerpserit arbore foetus («Será concedido penetrar os segredos da terra àquele que colher da árvore os frutos de ouro»). Anotemos, de passagem, que a forma decerceprit (a que aparece na inscrição) é uma desatenção do artífice que desenhou (ou restaurou) as letras. Os frutos de ouro (não apenas o rebento) são os livros, pendentes de um dos ramos, o escolhido no meio da floresta, que oferecem a quem neles lê a chave para o conhecimento do mundo, antes escondido (operta telluris).

As figuras e inscrições laterais não apenas enunciam os restantes saberes como os organizam: de um lado, o contraponto entre Natura e Ars; do outro, a Sacra Pagina e Astraea. Sob a epígrafe Ars alinham‑se elementos tradicionalmente ligados ao trivium — Gramática e Retórica — e ao quadrivium — Astrologia (simbolizada na esfera) e Música. Das palavras, as relativas à Música — musica oble[c]tat et allicit (a música deleita e seduz) — parecem ser apenas um comentário óbvio; já as restantes — omnes grammaticos rethoresque moneo («aconselho todos os gramáticos e oradores») — são atribuídas a Cícero, o tribuno teorizador da Eloquência, uma referência que não foi possível localizar claramente.

Mais interessante é, contudo, a composição que explicita o conceito de Natura: a Matemática e a Filosofia natural são aí encaradas como chaves descodificadoras de todo o universo — mathematica et philosophia coelum et terram circuivi sola («abarquei sozinha o céu e a terra por meio da matemática e da filosofia») — uma afirmação cuja expressão visual é o compasso que abraça o globo. É possível encontrar, em Ben Sirá, 24, 8‑9, o texto inspirador, no qual a Sabedoria faz o seu próprio elogio (diz de si mesma ser primogénita do Altíssimo) e onde o paralelismo das palavras é flagrante: girum coeli circuivi sola […] et in omni terra steti («percorri sozinha a órbita do céu […] estive em toda a terra»).

É como se a autoridade do texto bíblico fosse aqui invocada para realçar a importância da Matemática e da Filosofia Natural num ordenamento científico que se queria novo. A inclusão da medicina neste conjunto, como filosofia do corpo humano, prefigura a organização e a nomenclatura — «faculdades naturais» — que serão adotadas na reforma da universidade, em 1772. Na filactera pendente do bico do corvo — ave que simboliza sageza, transformação, morte e renascimento —, é citado Ovídio: temporibus medicina valet («a seu tempo, a medicina — ou o medicamento — é eficaz»), expressão que, com um complemento (data tempore, prodest — «ministrada atempadamente, é útil»), se tornou aforismo médico.

No lado oposto, é esboçada igualmente uma nova partição: os dois ramos do Direito — Canónico e Civil — tradicionalmente unidos, no seu estudo, por um ano propedêutico — cujo texto eram as Instituições de Justiniano —, estão agora separados, ficando o Direito Canónico unido à Teologia, sob a epígrafe de Sacra Pagina (ciências sagradas), designação que, em sentido estrito, se aplicava ao texto bíblico. Os dizeres que acompanham as duas figuras assumem um tom de familiaridade: en nobis theologiam et canones ad domus («a teologia e os cânones estão entre nós como em sua casa») e os símbolos — a cruz e a tiara — são transparentes. Esta junção dá visibilidade ao Direito Civil, simbolizado por Astreia — a justiça que os gregos chamavam dike e se misturara com a humanidade na idade de ouro —, que aparece isolada. Não será de estranhar este destaque, num momento em que se pretendia fomentar na universidade o estudo do Direito Civil — as leis —, inclusive proporcionando aos que nele se graduassem maiores facilidades no acesso à magistratura. A virgem Astreia segura, na mão esquerda, um facho ardente e na direita o feixe de varas (fasces) atado com correias, insígnia do litor romano — protetor dos magistrados — a que falta, contudo, o machado, símbolo do poder que tinha de aplicar a pena capital, mesmo se a seus pés o gládio está a par da balança.

A citação que a acompanha, atribuída a Séneca — designa‑se expressamente a tragédia Octavia —, apresenta‑se truncada e gramaticalmente incoerente, não reproduzindo nenhum verso específico. Parece antes uma síntese dos versos 398‑434, inseridos numa longa reflexão do personagem Séneca, após o Coro ter relatado o assassinato de Agripina, ordenado por Nero, seu filho. Aí estabelece‑se o contraste entre a idade de ouro e a de ferro: na primeira, illa Virgo […] Iustitia […] coelo missa […] terra regebat mitis humanum genus («a doce Virgem […] Justiça […] enviada do céu […] governava na terra a humanidade», 398‑399).

Mais adiante, porém, assinala-se que, na idade de ferro, neglecta terras fugit et mores feros hominum, cruenta caede pollutas manus Astraea uirgo («a virgem Astreia, abandonada, foge da terra, dos ferozes costumes dos homens e das suas mãos manchadas de sangue — 422‑424). Ressoa aqui claramente o texto das Metamorfoses de Ovídio (liv. I, 89‑150): victa iacet pietas et virgo caede madentes ultima coelestium terras Astraea reliquit, 149‑150 («a piedade jaz vencida e a virgem Astreia foi a última dos seres celestes a deixar a terra encharcada em sangue»). Ficará, afinal, o desiderato que a primeira condição de harmonia e equidade regressasse de novo, como profetizava a quarta écloga de Virgílio.

Haec instrumenta: o caráter funcional da Biblioteca, ao serviço da Universidade, desdobra‑se, neste caso, na beleza exuberante de uma sinfonia de ouro e cor — em três andamentos —, e no esboço de um novo sistema de saberes que o tempo irá consolidar.

Foram utilizados os textos originais latinos das obras referidas, assim como traduções e comentários, nomeadamente: Pereira, Maria Helena da Rocha, Romana, 4.ª ed., 2000; André, Carlos Ascenso (trad., introd. e anotações) Eneida, Virgílio), 2022; Alberto, Paulo Farmhouse (trad., introd. e notas), Ovídio, Metamorfoses, 2024; Clausen, Wendell (introduction and commentary) Virgil, Eclogues, 1994.

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