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A poesia como ato de resistência
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# A poesia como ato de resistência

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# A poesia como ato de resistência

## A vida académica, com as suas exigências incessantes e o seu ritmo implacável, é um território marcado por um solipsismo frequentemente embevecido, onde a embriaguez da busca pela excelência é a porta mais próxima para o confinamento mental.

≈ 7 minutos de leitura

PP

Paulo Peixoto

Pró-Reitor para a Inovação Pedagógica, Universidade de Coimbra

Na vida académica, há uma resistência subtil,\
Nos corredores longos, na chama de Abril.\
Pequenos gestos, quase impercetíveis,\
Formam a teia da Sala dos Atos invisíveis.

Um riso abafado, uma pausa aflita,\
O olhar que desafia a voz que nos grita.\
A leitura interrompida para respirar,\
O artigo ignorado que tanto nos fez sonhar.

São formas cavilosas de «sabotagem lenta»,\
Onde a produtividade, feita procrastinação, se ausenta.\
Não por descaso, mas por convicção,\
Uma maneira de afirmar a própria condição.

Nos cinismos que brotam à margem das normas,\
Na languidez de alcova, nas palavras sem formas,\
A resistência desenha-se com coragem e determinação,\
E cada gesto discreto é uma pequena subversão.

O humor é arma e também escudo,\
Contra o peso das pressões, o cansaço mudo.\
Poesia que disfarça um grito contido,\
Desafia o medievo e o conluio estabelecido.

Aqui, a resistência não é nunca luta aberta,\
Mas tão-só a lucidez de manter a porta entreaberta,\
Para que o vento entre e traga a leveza\
Às almas capazes de gargalhar contra a torpeza.

Porque a fraude espreita nos cantos escuros,\
Onde o brilho do mérito cede aos atalhos obscuros.\
É resistência ou desespero que a ética corrói?\
Ou é o sistema que, em silêncio, nos destrói?

Na vida académica, resistir é insistir,\
Que o pensamento não se deixe reduzir,\
Que na pressa de produzir e na ânsia de contar,\
Não percamos o momento de simplesmente parar.

Por entre os dias apressados e o cansaço que nos quer derrotar,\
Há momentos raros em que ainda nos podemos pensar.\
E cada ato, por menor que pareça ser,\
É uma faísca que um dia vai acender.

E nos vetustos muros, onde o tempo a história tece,\
A poesia sussurra aquilo que não se esquece.\
Na Torre de Marfim, onde o bafio vive escondido,\
Há um desprezível antigo de um fado fétido garrido.

Mas nas brechas do quotidiano e na pausa não planeada,\
Encontramos a força que nos mantém na estrada.\
O aconchego do lar e o riso dos filhos a crescer,\
Arrostam o sainete grotesco e destapam o que vale a pena viver.

Sociologicamente, a poesia é uma das formas de resistência quotidiana que abre a porta aos pequenos atos de contestação. Partilha com os movimentos sociais a capacidade de expressar resistências, despertar consciências e promover mudanças.

Na análise sociológica, a poesia é frequentemente vista como uma forma de resistência cultural e simbólica, capaz de traduzir sentimentos coletivos e reivindicações sociais de maneira poderosa e emocional. Mas (…) poderá mudar o mundo?

Ninguém muda o mundo sozinho. Mas muitos movimentos sociais que transformaram a sociedade radicalmente socorreram-se da poesia como ferramenta para inspirar a ação, construir solidariedades e contestar o *status quo*.

Através de versos que capturam a essência das injustiças e das aspirações de transformação, a poesia desenha o imaginário social, alimenta a imaginação política e contribui para mobilizar as pessoas. Por isso, é um objeto sociológico relevante e incontornável.

W. E. B. Du Bois, o sociólogo poeta, combinou a sociologia com a literatura, usando a poesia para expressar sentimentos profundos e provocar reflexões sobre questões sociais e políticas, tornando-a uma forma de resistência e de análise social.

A poesia de Du Bois foi uma arma contra o colonialismo, o imperialismo e o racismo. Aliada à análise sociológica, a sua poesia ancorou o pan-africanismo e tornou-se fonte de afirmação dos direitos civis de judeus, mulheres e trabalhadores.

A vida académica, com as suas exigências incessantes e o seu ritmo implacável, é um território marcado por um solipsismo frequentemente embevecido, onde a embriaguez da busca pela excelência é a porta mais próxima para o confinamento mental.

Na era da IA, cresce o risco de vermos a profundidade e o rigor das reflexões intelectuais cederem lugar à superficialidade das tarefas diárias. A poesia, que convida a mergulhar na polissemia, é o ato de resistência que oferece refúgios contra o desgaste académico.

As métricas da produtividade académica, por mais que rimem com os índices, não têm o alcance sonoro das métricas da poesia. Tão-pouco são uma forma que nos permita resgatar a capacidade de sentir e de nos conectarmos com a essência da vida.

A poesia oferece espaço para a introspeção, para o autoconhecimento e para a exploração de aspetos da vida que não podem ser medidos por índices, nem citados em bibliografias. A poesia revela-nos o peso do subjetivo e do outro que há em nós.

A poesia é um ato desconcertante que nos confronta com o medo oculto de que o verdadeiro conhecimento e sentido das coisas esteja além das portas da academia. O mundo lá fora, vibrante e desordenado, que segue sem se importar com o *homo academicus*.

Este texto homenageia James C. Scott (*Weapons of the Weak*), recentemente falecido.

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