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Peso ou Leveza?
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Peso ou Leveza?

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Peso ou Leveza?

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Luís Miguel Correia

Docente do Departamento de Arquitetura e investigador responsável pelo projeto UTOPIZE, Universidade de Coimbra

A data da redação deste artigo, duas figuras maiores da arquitetura dos séculos XX e XXI, Robert A.M. Stern (1939‑2025) e Frank O. Gehry (1929‑2025), vêm a falecer em Nova Iorque e Santa Mónica, na Califórnia, nos dias 27 de novembro e 5 de dezembro de 2025, respetivamente. De igual modo, este espaço de tempo dedicado ao tema do presente número da Rua Larga,«Beleza», ficou assinalado pela notícia de que, segundo as diretivas arroladas no One Big Beautiful Bill Act, da Administração Trump, a Arquitetura deixará de ser observada, à semelhança de mais uns outros diplomas, como um grau profissional pelo Departamento de Educação. A reação a esta resolução superior fez‑se sentir de imediato no espaço público, nomeadamente, por meio de comunicados de associações profissionais, como The American Institute of Architects, ou do contexto universitário. Para o presidente da Association of Collegiate Schools of Architecture, José LS Gámez, «Architecture has long been understood to be a profession built upon rigorous education, licensure requirements, and life‑long learning that prepare architects for the responsibilities of protecting the health, safety, and welfare not only of their clients but of the public at large». Nesta nota — publicada pela Association of Collegiate Schools of Architecture, no dia 2 de dezembro —, José LS Gámez conclui que a proposta da Administração Trump limitará as oportunidades de formação em Arquitetura e colocará em risco, forçosamente, o interesse público coletivo, cujo fim último, note‑se, já se acha em parte circunscrito na Ordem Executiva de 28 de agosto deste ano, do Presidente Donald Trump, Making Federal Architecture Beautiful Again.

Como ocorreu amiúde durante algumas décadas do século XX, por exemplo, na Europa, subjugadas a governos de tendência ditatorial, também Donald Trump cobiça a forma bela de tempos distantes, contemplados como de virtude cívica, como instrumento para alcançar idêntico reconhecimento eterno. Através de uma regenerada expressão formal da arquitetura contemporânea, de preferência clássica e tradicional, antevê‑se que o povo recorde os seus direitos e responsabilidades na manutenção e perpetuação das grandes sociedades norte‑americanas, em particular, a fundada pelo presidente George Washington e pelo secretário de Estado Thomas Jefferson.

Defronte da atual conjuntura nacional e internacional, é com inquietação, mas sem surpresa, que se assiste deste lado do Atlântico à instituição de preceitos que visam regular a expressão e inovação da arquitetura pública dos Estados Unidos da América. Com as resoluções Making Federal Architecture Beautiful Again e One Big Beautiful Bill Act, outorga‑se à beleza um peso eminentemente ideológico e político. O projeto de renovação da Casa Branca em Washington, D.C. — White House Ballroom —, conduzido numa primeira fase, sob escolha direta de Donald Trump, por McCrery Architects e, de dezembro de 2025 em diante, pelo arquiteto Shalom Baranes, representa um ato inaugural, simbólico, da nova ordem política nacional estabelecida. Aguardam‑se, entretanto, as repercussões transatlânticas.

Instituído de um espírito crítico e livre, o arquiteto canadiano Frank O. Gehry continuaria, por certo, a trabalhar de dentro para fora, consciente de que a possibilidade de transformar é sempre inconciliável com outra determinada por preceituários apriorísticos que, como o jazz, limitem o improviso e a procura do que se julga desconhecer, a leveza que invariavelmente alimenta os sonhos, que não os da arquitetura do Trumpismo. Também por esta circunstância se crê, deste lado do Atlântico, porventura ainda uma maioria, que a América se encontra em crise e, em resultado deste quadro, a ordem mundial hoje instituída.

Conforme reconhece Luis Fernández‑Galiano no texto de abertura do 272.º número da revista Arquitectura Viva, de março de 2025, vive‑se uma era de «los imperios inciertos». Não obstante este panorama de desassossego quotidiano, a redação do jornal The Economist perscrute, numa crónica publicada em 10 de abril de 2025, que a Europa é hoje a verdadeira terra da liberdade: «Europeans have created a place where they are guaranteed rights to what others yearn for: life, liberty, and the pursuit of happiness». Será?

A arquitetura é, por natureza, um lugar de pensamento livre e crítico sobre o que nos rodeia. Tal condição, implica, necessariamente, a sua compreensão física e a perceção das suas distintas dimensões intangíveis no espaço e no(s) tempo(s). A transformação de um determinado ambiente construído numa terra de vida e de felicidade plenas, exige, em qualquer circunstância, o domínio desses diferentes saberes e, simultaneamente, a presença de um conjunto de «técnicos» capacitado para o projetar, em perfeita harmonia com o meio, numa condição vindoura, na medida em que o presente é percebido como um instante sem duração, por isso quase impossível de fixar, conquanto constitua uma experiência ininterrupta da consciência no espaço e no tempo. Em concordância com as palavras concedidas pelo arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels à plataforma digital ArchDaily, dadas a conhecer no dia 18 de fevereiro de 2014, testemunha‑se que «Architecture is the art and science of making sure that our cities and buildings actually fit with the way we want to live our lives». A arquitetura cuida, particularmente, deste desígnio: o de ser contemporâneo, como expressa Giorgio Agamben; ou, de modernidade permanente, de acordo com Fernando Távora. Distinta qualidade, reconhece‑se nos que estimam o peso do seu próprio tempo e dele se distanciam com a leveza de quem compreende, criticamente, a luz que procede de outras vidas. Ao futuro oferece‑se a cada momento uma renovada leitura da história e do próprio agora.

Os diferentes efeitos decorrentes do atual panorama geopolítico e das alterações climáticas conformam, per se, desafios à escala de globo, a que se juntam, entre demais fenómenos, vastas migrações e a privação, em muitos casos, de um teto. Não há casas para todos. De igual modo, encontram‑se ainda por descortinar as verdadeiras consequências do uso indiscriminado de Inteligência Artificial (IA). Conforme indicadores presentes no website do Conselho Europeu / Conselho da União Europeia, é efetiva a valia da maioria das aplicações e dos sistemas de IA, mas, em conjunto, encerram vários e importantes riscos para a sociedade, como a discriminação, o enviesamento, a intromissão e a manipulação de formas de pensar e de comportamento. A arquitetura de (e para) hoje constitui, como as de outros tempos, uma oportunidade para transformar o chão que pisamos num ambiente melhor. Desafiam‑se problemas e dúvidas, abraçam‑se interesses e ambições de natureza vária, uns com origem em conveniências pessoais e outros ao abrigo de estratégias coletivas. A natureza e o espaço construído dialogam, confrontam‑se as inovações tecnológicas com os saberes e práticas antigas.

Independentemente da circunstância, Peter Zumthor sublinha, em Atmosferas, que a magia do real, a qualidade arquitetónica, se produz quando se estabelece uma ligação imediata e sem filtros com o que nos envolve. Conhecemos essa impressão, a maioria das vezes de forma inconsciente. Sentimo-nos bem, sem reconhecer as razões dessa perceção emocional. Quem não se comove com um feixe de luz solene e sublime que, perfurando um orifício com nove metros de diâmetro, imortaliza um chão de pedra geometricamente esculpido em mármores coloridos? Na antiga Basilica di Santa Maria ad Martyres — Panteão de Roma— convoca‑se distinta magia do real, a experiência do corpo no espaço e no(s) tempo(s), neste caso, igualmente como revelação coletiva. Apropriando‑nos da locução de Philip Johnson, publicada na edição do dia 27 de dezembro de 1964 do New York Times, o Panteão de Roma recorda‑nos que «Architecture is the art of how to waste space [beautifully]». A ele regressamos uma e outra vez, invariavelmente com a mesma emoção.

No rescaldo da pandemia de COVID‑19, que assolou a Terra no princípio do ano de 2020, já a Europa comunitária tinha a percepção de que a sua recuperação iria exigir de todos os Estados-membros um compromisso para os tempos próximos e os de médio prazo. Pretendia materializar‑se uma efetiva mudança da situação então vigente por meio de um programa próprio. A Europa procurava afastar‑se de outros cenários e protagonistas da cena internacional que pudessem colocar em causa o seu objetivo. Sabemos, hoje, que de 22 de setembro de 2022 em diante, data em que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenou a invasão do leste da Ucrânia, e com recente tomada de posse, no dia 20 de janeiro de 2025, de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, tal plano delineado há cinco anos sofreria um forte revés, a que se juntaram mais uns quantos conf litos e adversidades. Mas, em setembro de 2020, a presidente da Comissão Europeia à época, Ursula von der Leyen, frisou, num discurso enunciado na sessão plenária do Parlamento Europeu sobre o estado da União, que a edificação de um mundo em que se queria viver impunha uma união vital num mundo fragilizado. Para o efeito, exporia numa carta de intenções, previamente entregue ao presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, e à chanceler da Alemanha, Angela Merkel, um leque de princípios estratégicos e planos de ação da Comissão Europeia que visavam cumprir a promessa de uma Europa humanitária, solidária, resiliente e forte. Estabelecia‑se o modelo para um novo paradigma de crescimento baseado numa economia limpa, inovadora e inclusiva, também atento à soberania digital e tecnológica. Ursula von der Leyen intitulou‑o de NextGenerationEU.

Defronte deste contexto, prenuncia‑se uma vaga de renovação europeia que concretizaria o projeto ambiental e económico ansiado, como, sobretudo, um projeto cultural: «This is shaping the world we want to live in». Giza‑se uma economia que reduz as emissões poluentes e a pobreza energética, desperta a competitividade, incita a criação de postos de trabalho compensadores e melhora a qualidade de vida de todos. Imagina‑se a fundação de uma sociedade mais saudável e ecológica com o uso generalizado das tecnologias digitais. Mas, como salvaguardava a presidente da Comissão Europeia no final do verão de 2020, «every movement has its own look and feel. And we need to give our systemic change its own distinct aesthetic—to match style with sustainability». Ao invés da Adminstração Trump, Ursula von der Leyen vislumbra tal representação da Europa de amanhã sem fronteiras ou preconceitos «estilísticos». Institui‑se, nesta data, o programa New European Bauhaus, definido, desde logo, como um espaço de cocriação multidisciplinar e interdisciplinar. Em conjunto com artistas, estudantes, engenheiros e designers, os arquitetos são convidados a assumir a responsabilidade dessa transformação, a de repensar a vida na Europa e além‑fronteiras, que viria a reunir os cidadãos, as empresas e diferentes instituições. No dia 18 de janeiro de 2021, são comunicados os fundamentos que mais em detalhe informam este projeto de criação coletiva e partilhada, fortemente induzido pelos problemas sociais complexos existentes na sociedade europeia no período do pós‑COVID‑19.\ Encoraja‑se a criatividade, a experimentação, a inovação e a ambição. Observa‑se o universo da ciência e da tecnologia e o da arte e da cultura de mãos dadas e em harmonia. Alinham‑se os desafios ecológicos e os digitais. Reivindica‑se uma modernidade permanente — aquele ser contemporâneo que sonha a transformação no espaço compreendido entre o passado, o presente e o futuro. Reinventa‑se a heroica Bauhaus fundada na cidade de Weimar, em 1919, pelo arquiteto alemão Walter Gropius, com base em três valores indissociáveis entre si: a sustentabilidade, a beleza e a inclusão. A circularidade, a poluição zero e a biodiversidade garantem um clima saudável, enquanto a prática da diversidade, a acessibilidade e os custos economicamente comportáveis oferecem aos europeus a igualdade social pretendida. Por sua vez, associa‑se a beleza à funcionalidade e, particularmente, à qualidade do desenho e da experiência. Bem distinta da situação presentemente sentida na América de Trump, os europeus dos 27 estados‑membros da União são convocados «to imagine and build a sustainable and inclusive future that is beautiful for our eyes, minds, and souls».

Em síntese, defere‑se à arquitetura a responsabilidade de parte significativa deste encargo, mas, decerto, entrega‑se‑lhe a possibilidade de sonhar, em liberdade, a descoberta de novas relações com a terra que sempre se repartiu com outras espécies e horizontes. O mundo mudou e a guerra tomou lugar, lado a lado, com o desígnio New European Bauhaus. Peso ou leveza?

Por último, importa produzir uma breve referência a um projeto New European Bauhaus sediado na Comunidade Intermunicipal (CIM) da Região de Coimbra e no qual a Universidade de Coimbra (UC) desempenha uma missão relevante, através do Departamento de Arquitetura (DARQ), do Centro de Estudos de Arquitetura — do Território ao Design (ceARQ‑TD) e do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC)1. Como é conhecido, o DARQ, o ceARQ‑TD e, ainda, o CISUC integram a vigente estrutura orgânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. Perfilado com as premissas do programa New European Bauhaus, o projeto Urban transformation through open participation and inclusivity for Citizen Empowerment (UTOPIZE) propõe, grosso modo, envolver comunidades na cocriação e governação de espaços públicos em ambiente urbano, periurbano e rural, mediante um quadro participativo diligente.

Nos Laboratórios UTOPIA, os cidadãos, sobretudo as comunidades marginalizadas, como minorias étnicas, populações de baixos rendimentos, pessoas com deficiência e outros grupos em risco de exclusão, imaginarão, em conjunto, a transformação dos seus territórios, recorrendo, entre outras, a ferramentas digitais e a soluções e materiais amigas do ambiente, como as baseadas na natureza — nature-based solutions (NBS). O exercício de planeamento urbano e os processos de decisão serão praticados em regime de inclusão e em tempo real. O centro do projeto é o chão público, lugar de todos. Atendendo aos objetivos de neutralidade climática recomendados pela Comissão Europeia, procurar‑se‑á reforçar a sua resiliência ambiental. A coesão social rever‑se‑á na história e na identidade de cada local. O seu chão é, por isso, memória e devir.

O projeto UTOPIZE reúne protagonistas de múltiplas áreas do saber — Arquitetura, Engenharia, Ciências Sociais e Artes — e tem como contexto Penacova, Ponte Lambro, em Itália, e Karlskoga, na Suécia. Posteriormente, será alargado a outros seis países. As primeiras tarefas tiveram início no dia 1 de maio do presente ano, sendo que o termo do projeto UTOPIZE se encontra previsto para 30 de abril de 2028.

1 A equipa da UC é constituída por Luís Miguel Correia, Bruno Gil, Susana Lobo, Désirée Pedro e Pedro Martins Carvalho, do DARQ/ceARQ-TD, em conjunto com Marília Curado, Jorge Cardoso e Paula Alexandra Silva, do CISUC. Além da UC, integram este projeto o Politecnico di Milano (Itália), a Örebro University (Suécia) e a Aalto University (Finlândia). Os laboratórios UTOPIA serão instalados nos municípios de Penacova, Milão e Karlskoga. Outros parceiros encontram-se também associados ao projeto UTOPIZE.

Interno del Pantheon, Giovanni Paolo Panini, c. 1734 Oil on canvas, 128 x 99 cm\

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