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«Em Ciência Tudo É Belo»
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«Em Ciência Tudo É Belo»

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Delfim Leão

Vice-Reitor para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Universidade de Coimbra

A expressão escolhida para servir de epígrafe a esta breve nota foi inspirada, de forma assumidamente voluntária, no título que Maria Helena da Rocha Pereira utilizou para introduzir um excerto de um dos tratados de Aristóteles, por ela citado na sua célebre obra Hélade. De facto, a insigne professora da Universidade de Coimbra (UC), que se notabilizou na área dos Estudos Clássicos e cujo centenário (1925‑2025) se está precisamente a celebrar, conta, entre a sua notável produção científica, com a publicação de duas coletâneas de textos gregos e latinos, traduzidos por si a partir da língua original, de modo a minorar o impacto negativo da inexistência em Portugal de traduções fidedignas das grandes obras clássicas. Embora o seu objetivo declarado fosse disponibilizar compilações de textos selecionados para apoio imediato às aulas e não traduções completas de autores ou obras específicas, tanto a Hélade: Antologia da Cultura Grega (1959, 10.ª edição em 2009) como a Romana: Antologia da Cultura Latina (1976, 6.ª edição em 2010) acabariam por tornar‑se obras de referência de grande sucesso editorial junto de um vasto público.

Quem estiver familiarizado com aquelas coletâneas de textos clássicos terá bem presente, de igual forma, a prática de cada excerto ser antecedido de um pequeno título. Esses títulos que Maria Helena da Rocha Pereira atribuía aos passos selecionados não figuravam no original, mas eram por si cuidadosamente escolhidos para servirem de primeiro guia de interpretação. O excerto que motivou estas reflexões preliminares é retirado do tratado aristotélico Partes dos Animais (645a), no qual o Estagirita faz a seguinte afirmação:\ «Devemos dedicar‑nos ao exame de cada um dos animais sem repelência, sabendo que em cada um subsiste uma parte da natureza (physikós) e da beleza (kalós)».

Se procurássemos fazer um ensaio da interpretação desta passagem em conexão com a carreira da distinta classicista, facilmente se poderia concluir que a «natureza» do trabalho da filóloga se uniu de forma profunda e harmoniosa com a mais pura expressão da «beleza». De facto, em Maria Helena da Rocha Pereira, a beleza surge como expressão natural do rigor e da busca pela honestidade científica. A sua dedicação à arte clássica, aos vasos gregos, à riqueza hermenêutica dos grandes trágicos, à precisão filológica ou à arquitetura moral dos textos antigos, revela uma convicção profunda: a consciência de que compreender o mundo antigo é também descobrir a discreta harmonia nele inscrita. O gesto de traduzir, editar e ensinar os clássicos nasce, assim, de um duplo apelo ao conhecimento profundo e à pulcritude da própria indagação — apelo esse a que a autora soube responder como poucos.

Assim, ao invocar a autoridade de Aristóteles para sustentar que cada ser encerra uma parcela de «natureza» e de «beleza», Maria Helena da Rocha Pereira estava, no fundo, a sublinhar o seu próprio método de trabalho: o propósito de indagar com genuína paixão, fina inteligência e cuidado, porque, tanto na ciência como na vida, a beleza é uma parte essencial da compreensão de distintas mundividências.

A XXVIII Semana Cultural da UC, dedicada à «Beleza», é marcada igualmente pela feliz circunstância de se associar à celebração do centenário da Mestre conimbricense, cuja vida constitui um símbolo raro de consonância entre «o belo e o bom» (kalòs kaì agathós). De facto, tal como a renovação do Paço das Escolas devolve à Universidade a sua luminosidade histórica, também a obra de M. H. da Rocha Pereira restitui ao presente a ígnea beleza do fogo prometeico que constitui raiz de tradição — diligentemente procurado, estudado e partilhado. Alinhada com esse mesmo espírito, a exposição «Beleza do Saber, Felicidade no Estudo», promov ida pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, com o apoio da Reitoria e da Biblioteca Geral da UC (que acolheu o seu vasto espólio bibliográfico), constitui uma oportunidade única para conhecer fotografias, correspondência e documentos inéditos, que revelam a forma como a homenageada aliou a excelência científica e a justa projeção internacional, num processo marcado por profunda maturação intelectual.

Em consonância com os valores propalados pelo Novo Bauhaus Europeu, a beleza é, na obra de M. H. da Rocha Pereira, um projeto de futuro, um ponto de encontro entre património e inovação, arte, ciência e cidadania. Evocar a Mestre é, por conseguinte, celebrar a convicção que norteou toda a sua vida: a de que o saber, quando genuíno, constitui uma forma elevada de beleza e um horizonte de transformação.

Quem com ela privou no passado, gostaria por certo de poder voltar a partilhar com a «Nossa Senhora» os momentos inefáveis de ânimo perene que antecedem a fruição da beleza do conhecimento. Mas sendo definitivamente pretéritos esses tempos de presencial convívio, que subsista o paradigma de estudo que incarnou e a beleza que dele irradia.

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