Metadata
Title
A ciência pode ter poesia?
Category
general
UUID
d4b8890b210e45aea1bdde514b36ceda
Source URL
https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-ciencia-pode-...
Parent URL
https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/
Crawl Time
2026-03-24T05:36:07+00:00
Rendered Raw Markdown
# A ciência pode ter poesia?

**Source**: https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-ciencia-pode-ter-poesia/
**Parent**: https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/

PT

[Rua Larga](https://www.uc.pt/rualarga/)

[Entrar](https://apps.uc.pt/)

/ [Revistas](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/) / [Poesia](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/) / [Reitoria em Movimento](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/) 

# A ciência pode ter poesia?

## Um problema nunca tem uma só dimensão, e temos de ser capazes de invocar muito(s) conhecimento(s) para o abordar.

≈ 10 minutos de leitura

JR

João Ramalho-Santos

Vice-Reitor para a Investigação, Universidade de Coimbra

Há coisas que se ensinam em Comunicação de Ciência entre pares, ou seja, não dirigida a um público mais geral. Além de evitar títulos longos e especializados, uma delas é ter cuidado com o uso de pontos de interrogação no título de um artigo. Há a ideia que, de forma subliminar, o sinal dado pela pontuação aponta para a resposta dada no texto subsequente nunca ser claramente afirmativa. Quando não for um simples e enfático «**não**».

Pois seja esta uma exceção que não confirma a regra.

Na verdade, se há coisa que a ciência sempre teve foi poesia, embora por vezes toldada por noções de beleza (a perfeição simétrica, por exemplo) que nem sempre refletem o mundo e quem o habita. Visões essas que até podem influenciar o modo como sintetizamos o conhecimento científico. A ciência é complexa, tem muitos cambiantes e condicionantes, muito ruído e erro. Não deixa de ser natural que as inevitáveis simplificações generalistas que se têm de fazer, se úteis do ponto de vista prático-tecnológico, quase sempre se revelem incapazes de capturar essa riqueza de forma integral. O que, por sua vez, leva a interpretações abusivas daquilo que é uma imperfeição crónica, nas quais a certeza parece mais certa do que, na verdade, é.

Daí que a ciência tenda a ser quase sempre vista (injustamente) de forma binária, entre a beleza sublime e uma construção fria. Fernando Pessoa deu eco disso mesmo com recurso aos seus heterónimos:

De Álvaro de Campos:

***O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.***

***O que há é pouca gente para dar por isso.***

A Ricardo Reis:

***D******eixemos, Lídia, a ciência que não põe***

***Mais flores do que Flora pelos campos******,***

***Nem dá de Apolo ao carr******o***

***Outro curso que Apolo.***

***Contemplação estéril e longínqua***

***Das coisas próximas, deixemos que el******a***

***Olhe até não ver nada***

***Com seus cansados olhos.***

Passando por Alberto Caeiro:

***Todas as opiniões que há sobre a Natureza***

***Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.***

***Toda a sabedoria a respeito das cousas***

***Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;***

***Se a ciência quer ser verdadeira,***

***Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?***

Ou Fernando Pessoa, «ele mesmo»:

***A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...***

***Ah, como tudo é nulo e vão!***

***A pobreza da inteligência***

***Ante a riqueza da emoção!***

Culminando na síntese particular-geral do inesgotável Bernardo Soares:

***O homem de ciência reconhece que a única realidade para si é ele próprio, e o único mundo real o mundo como a sua sensação lho dá. Por isso, em lugar de seguir o falso caminho de procurar ajustar as suas sensações às dos outros, fazendo ciência objectiva, procura, antes, conhecer perfeitamente o seu mundo, e a sua personalidade. Nada mais objectivo do que os seus sonhos.******Nada mais seu do que a sua consciência de si. Sobre essas duas realidades requinta ele a sua ciência. É muito diferente já da ciência dos antigos científicos, que, longe de buscarem as leis da sua própria personalidade e a organização dos seus sonhos, procuravam as leis do «exterior» e a organização daquilo a que chamavam «Natureza»***

Claro que, ao intimamente ligar (como era inevitável) razão e emoção, o trabalho de António Damásio pode ter ajudado a desbloquear uma dicotomia que nunca fez nenhum sentido. De forma a podermos olhar com mais confiança para a ciência, de um modo não apenas técnico, mas holístico e humano. Um problema nunca tem uma só dimensão, e temos de ser capazes de invocar muito(s) conhecimento(s) para o abordar. Essa síntese foi, de resto, brilhantemente antecipada na poesia de António Gedeão, o poeta por trás (ou pela frente? ou nada disso faz sentido?) do notável professor de Físico-Química, divulgador e historiador de ciência e educação, Rómulo de Carvalho.

Esse olhar mais global é particularmente relevante hoje, num tempo de extensa reorganização das lógicas do sistema científico nacional. Um sistema que (infelizmente) se habituou a produzir muito e bem com pouco, mas onde à falta de financiamento e de uma estratégia nacional de desenvolvimento se junta o culminar de décadas de políticas que promoveram ativamente a incerteza, e o empurrar com a barriga de problemas. Ao que agora se pode acrescentar o aproveitamento cínico por quem foi parte integrante do problema e atua como se nunca tivesse tido responsabilidades. Pior ainda, tivesse soluções, não científicas, mas mágicas. Em ciência, como em tudo o mais, o sucesso tem dezenas de mães e pais, o não-sucesso tende a ser órfão.

Adília Lopes sintetiza bem este tipo de situação, num tom que tem tanto de certeiro quanto de absurdo:

***O burro puxa***

***o carro***

***o carro puxa***

***o burro***

***graças ao atrito***

***que tudo resolve***

***do sexo ao ciclotrão***

***o carro anda***

***o burro anda***

***e a lei da ação­-reação***

***não é violada***

***mas esta história***

***está mal contada***

Ou, resumindo com o mote de um poema de António Aleixo:

***— Onde nasceu a ciência?…***

***— Onde nasceu o juízo?…***

***Calculo que ninguém tem***

***Tudo quanto lhe é preciso!***

A questão é teimar sempre, o mais e o melhor possível, na procura de soluções que nunca serão as ideais. E juntar à esperança uma dose razoável de pragmatismo. No poema «I Am Waiting», o poeta *beat* norte-americano Lawrence Ferlinghetti declara estar perpetuamente a aguardar um renascimento da maravilha. Como Alberto Caeiro declarava sentir-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo. Acontece que a novidade e a maravilha podem surgir espontaneamente (e surgem), mas também se trabalham, muito. E este é um desígnio urgente, como avisa Manuel Alegre, no final do seu poema «Chegar Aqui», particularmente apropriado neste contexto, trocando «Portugal», por «Universidade de Coimbra»:

***Não há dúvida temos um passado***

***Talvez de mais***

***Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro***

***Mas fomos pelo mar chegámos longe***

***E agora Portugal o que será de ti***

***Se não formos capazes de chegar***

***Aqui******.***

*P.S.:*

*Este texto é dedicado, com muito amor, aos meus pais*

*Maria Irene Ramalho*

*Boaventura de Sousa Santos*

*Que homenageio no meu nome, com o hífen possível*

[Artigo anterior](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/um-balanco/)[Artigo seguinte](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/universidade-de-coimbra-alta-e-sofia-salvaguarda-e-autenticidade/)

[Esta edição](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/)

[Download](https://www.uc.pt/site/assets/files/2092790/rl_59_web-1.pdf)

- [Editorial](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/editorial/)
  - [UC e Poesia - Dinâmicas de Criação e de Inovação](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/editorial/uc-e-poesia/)

- [Reitoria em Movimento](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/)
  - [A «questão poética» na era da inteligência natural](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-questao-poetica-na-era-da-inteligencia-natural/)
  - [Um balanço](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/um-balanco/)
  - [A ciência pode ter poesia?](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-ciencia-pode-ter-poesia/)
  - [Universidade de Coimbra, Alta e Sofia — Salvaguarda e Autenticidade](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/universidade-de-coimbra-alta-e-sofia-salvaguarda-e-autenticidade/)
  - [Poíesis e Ensino-Aprendizagem: a Revelação e a Criação de Sentidos](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/poiesis-e-ensino-aprendizagem-a-revelacao-e-a-criacao-de-sentidos/)
  - [Internacionalização da UC: prioridades](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/internacionalizacao-da-uc-prioridades/)
  - [Ode à Transformação: a Universidade enquanto Agente de Mudança](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/ode-a-transformacao-a-universidade-enquanto-agente-de-mudanca/)
  - [Inovação e Transferência de Conhecimento: A Universidade de Coimbra como Poeta de Parcerias Empresariais](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/inovacao-e-transferencia-de-conhecimento-a-universidade-de-coimbra-como-poeta-de-parcerias-empresariais/)
  - [A poesia como ato de resistência](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-poesia-como-ato-de-resistencia/)
  - [Universidade de Coimbra: Universidade Empreendedora](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/universidade-de-coimbra-universidade-empreendedora/)
  - [A Poesia dos Jogos: Transcendência, Arte e Valor na Experiência Olímpica e Paralímpica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/reitoria-em-movimento/a-poesia-dos-jogos-transcendencia-arte-e-valor-na-experiencia-olimpica-e-paralimpica/)

- [Oficina dos saberes](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/)
  - [Retrovisor](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/) 
    - [Santa Isabel, Consorte do Rei Trovador](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/santa-isabel-consorte-do-rei-trovador/)
    - [Camões Celebrado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/camoes-celebrado/)
    - [Anseio de Plenitude e Horizonte de Paz Universal em Luís de Camões](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/anseio-de-plenitude-e-horizonte-de-paz-universal-em-luis-de-camoes/)
    - [A Voz Trágica de Carlos Paredes na Evocação do seu Centenário: Poíesis e Significado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/a-voz-tragica-de-carlos-paredes-na-evocacao-do-seu-centenario-poiesis-e-significado/)
    - [O Legado Pessoa](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/retrovisor/o-legado-pessoa/)
  - [Ribalta](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/) 
    - [Applausos da Vniversidade a El Rey N. S. D. Ioão IIII](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/applausos-da-vniversidade-a-el-rey-n-s-d-ioao-iiii/)
    - [Sobre (ou sob) o Poetry Slam](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/sobre-ou-sob-o-poetry-slam/)
    - [Coimbra: em cada Esquina, um Poeta](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ribalta/coimbra-em-cada-esquina-um-poeta/)
  - [Ciência Refletida](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/) 
    - [Projeto Europeu CONVIVIUM: Património Alimentar, um Novo Ativo do Programa New European Bauhaus](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/projeto-europeu-convivium-patrimonio-alimentar-um-novo-ativo-do-programa-new-european-bauhaus/)
    - [BIOBASED2UC, um Projeto para a Universidade de Coimbra: Poíesis e Práxis lado a lado](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/ciencia-refletida/bibiobased2uc-um-projeto-para-a-universidade-de-coimbra-poiesis-e-praxis-lado-a-lado/)
  - [Ágora](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/agora/) 
    - [Sem título](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/agora/sem-titulo/)
  - [Patrimónios](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/patrimonios/) 
    - [O Rosto de um Rei](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/oficina-dos-saberes/patrimonios/o-rosto-de-um-rei/)

- [Ao largo](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/)
  - [Crónica](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/cronica/) 
    - [Camões, Poeta Internacional](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/cronica/camoes-poeta-internacional/)
  - [Criação Literária](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/criacao-literaria/) 
    - [Poema de.pen.durar](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/criacao-literaria/a-voz-de-cada-era-a-sua-voz/)
  - [Lugar dos Livros](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/) 
    - [Prémio Joaquim de Carvalho 2024](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/premio-joaquim-de-carvalho-2024/)
    - [Destaques](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/poesia/ao-largo/lugar-dos-livros/livros-destaques/)