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Deinós. Uma Homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira
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Deinós. Uma Homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira

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Deinós. Uma Homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira

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HC

Hélia Correia

Escritora

«Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir‑nos?», disse o homem que tinha por apelido Rilke, sendo que ao nome próprio o mudou por amor, outra visitação desse terrível que inundou de beleza os seus poemas.

Eu dormi no lugar onde ele escreveu isto, que não é o lugar pelo qual caminham os cultores que pretendem refazer os seus passos, o que sucede igualmente com Yeats e a sua casa em Howth. Até mesmo uma ponte visitada na Escócia, porque consta que as fadas a atravessam, não é, creiam em mim, a verdadeira ponte. Pois aqueles que procuram acercar‑se, usando a arrogância do seu corpo, a informação que foram recolhendo nos livros, nunca se acercarão. Os sabedores, que são os habitantes das paisagens, cobrem os rastos instintivamente. Calam‑se e tornam tudo inominável.

Rilke não pareceu rude, mas foi rude quando, nas cartas que escreveu ao jovem Kappus, que lhe pedia aconselhamento, deixou a frase: «Se puder passar sem escrever, não escreva». E tudo o que disse antes, o que disse depois nas mesmas cartas, por muito valioso e disruptor que seja, escurece sob a frase verdadeira e brutal.

Rilke não tinha a técnica em consideração, tão pouco suportava o trabalho metódico e intensivo. Estava dentro e entrava para dentro das coisas, entrava nos segredos das plantas e do ar. Assustou uma vez Lou Andreas Salomé, que não era mulher de se assustar, quando paralisou ao olhar uma árvore.\ «Deixa que tudo te aconteça: a beleza e o terror», escreveu depois. Apenas Hölderlin e ele souberam do estranho modo como os cérebros da Grécia se entendiam com o mundo exterior. Apenas eles escaparam à designação de «malditos modernos» com que Jorge Katsimbalis insultou o inteiro Ocidente e os seus companheiros Henry Miller e Durrell, quando, na luminosa noite da Acrópole, lançou um atroador cantar de galo e os galos de Atenas acordaram e o grande som pagão dominou tudo, trocando as horas e o saber dos animais, mobilizados pela voz da tribo. Dir‑se‑á que também Durrell esteve perto, mas, tal como Isadora e o casal Sikelianos, tão empenhados com o corpo e com o espírito em dar segunda vida à Grécia Antiga, ignorava que um encontro desses não se faz com a matéria, mas com a ausência dela; não se faz com a luz, mas com o deslumbramento que provoca a cegueira.

Os que comentam Rilke recorrem quase sempre à ideia do sublime e da beleza cujo horror pode matar porque o humano coração rebenta. Os tropeções da civilização, que foram levantando muita lama e tornaram, portanto, necessário que muita coisa fosse esclarecida, incluindo os enigmas do divino, só sossegaram quando o pensamento humano achou conforto na organização dual do mundo, o racional e o irracional, o animado e o inanimado, o bem e o mal, o céu e o inferno, o masculino e o feminino, separados por véus como tijolos.

Ainda que rebelde, a linguagem verbal teve de submeter‑se à arrumação. O jogo dos antónimos começou. O Bom e Belo transformou‑se em Bom ou Mau. Tudo se tornou simples, na verdade. Havia ligeireza no pecado por haver ligeireza no perdão. Na Igreja, os sentidos sujeitavam‑se ao entorpecimento que, por vezes, se confundia com um toque hipnótico, sob o efeito do incenso e do latim, cuja névoa ficava nas volutas. Se houvesse ali uma beleza, ninguém tinha um nome apropriado para lhe dar.

Na evolução civilizacional, desaparecera o turbilhão da Grécia, os deuses de complexos enredos biográficos e os humanos capazes de os narrar nos sob forma poética, a mais difícil. Desapareceram a altíssima desordem dos encontros humanos com os caprichos divinos e as histórias de uns e de outros que, entranhadas, organizavam a cidade e o devir.

Nós nem sequer esquecemos. Na verdade, nunca soubemos o que foi aquilo. Podemos, em Atenas, ver as ruas e as casas intactas sob o chão, mas não lhes percebemos movimento, nem som, nem cheiro. Os vidros que as protegem protegem-nos também do que já lá não está. A luz grega não era um esclarecimento. Era uma luz pesada e assustadora. O mais amado deus, Apolo, era cruel. Os deuses mais antigos, os que vinham da terra e mantinham secretas conversas com as mulheres, faziam estremecer os caminhantes, não porque a fealdade os assustasse, mas porque as narrativas ensinavam que não se atravessava a escuridão.

E a beleza não era uma mundanidade. Era um mistério que os humanos veneravam e que, por vezes, visitava as suas mãos. A perfeição efémera dos mortais, sobre a qual existiam palavras de ciência e de filosofia, ganhava em estátua a duração divina.

A mente poderosa dos Helenos criou a arte e a arquitetura, a poesia e o ensino, a oratória, o teatro e a política, tudo raios que convergem para um centro em combustão, a maravilha da humanidade. Sabemos isso, mas ignoramos como e, acima de tudo, ignoramos por quê. O número dourado que está na Natureza fractal e que ditou as proporções formosas do Pártenon — de que maneira foi descoberto e apreendido por essa gente conversadora e ociosa? Esse número mede a beleza de um rosto. Mas não mede ele também o encoberto?

Com os Gregos não houve pecado original, embora certas ambições iniciais houvessem desencadeado os maiores desastres. Tornados mitos, cintilavam à distância e eram como estrelas presas num longo texto. Encantavam, em vez de interditarem. Para se protegerem do excesso, instituíram eles próprios uma outra lição, a das consequências fatais da arrogância. Era muito difícil não se considerarem melhores que tudo e todos, quando eles eram, de facto, melhores que tudo e todos. O discurso de Péricles decerto não agradou aos deuses, porque proclamava a superioridade dos Atenienses. Já assim Ésquilo exaltara a Grécia inteira. Talvez por isso, a peste tenha caído sobre a cidade. Ainda assim, aquele discurso foi fixado na escrita de Tucídides, porque valia mais do que os acontecimentos.

A beleza era causa de orgulho e perdição: esses louros cabelos dos aqueus, essas ninfas que punham o Olimpo em alvoroço. E os mitos não tinham por missão serem modelos de comportamento, mas sim organizarem, algo confusamente, a memória e os sustos de um passado intrigante. Eles eram sobretudo narrativas, aquilo que tinha por finalidade ser contado, o que tornava belos os serões quando os viajantes eram hospedados sem que lhes perguntassem o nome ou a origem e retribuíam a amabilidade com antigas histórias dos seus lugares natais.

Ao mesmo tempo leves e corpóreas, as palavras sustinham o universo. Continham as camadas da sua própria história, ainda musicais e percetíveis. Hölderlin conseguiu apreender no texto da tragédia o sentido profundo dos seus versos que escapa à interpretação denotativa. Os escritores seus contemporâneos ridicularizaram a proposta. Era preciso estar à beira da loucura, da sobre‑humana inteleção da obra, para tocar assim na sua ardência. Semelhante beleza é‑nos vedada.

O pensamento acerca da beleza acompanhou as obsessões dos séculos, sendo que grande parte do assunto cai sobre a sua subjetividade — isto é, cai sobre a sua inexistência.

Quanto ao poema, fez dela aquilo que quis. Escreveu Keats que uma coisa bela dura para sempre. Escreveu Sophia que aquele que ama a beleza se enojará da sua podridão.

Eu associo sempre a palavra beleza ao estupendo vocábulo dos Gregos «deinós», «belo e terrível», essa palavra espessa que não tem duas significações opostas, mas só uma, anterior à gramática antonímica, a da extrema beleza assustadora que esmaga, que deslumbra.

E que depois, um dia, nos deixou.

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