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Quando a Natureza nos Interpela.
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# Quando a Natureza nos Interpela.

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# Quando a Natureza nos Interpela.

## Reflexões a partir do Projeto Mapear para Proteger

≈ 9 minutos de leitura

JA

Joana Alves

Investigadora do Centre for Functional Ecology — Science for People & the Planet, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra

A beleza da Natureza raramente se impõe de forma imediata. Revela‑se na sua simplicidade complexa, na diversidade de formas, cores e interações, naquilo que sustenta a vida e lhe dá continuidade. É nela que encontramos alimento, abrigo e sentido. E, apesar de tantas vezes o esquecermos, dela somos parte integrante, não observadores externos, mas elementos desta teia viva de relações. Contudo, é quando essa ligação se fragiliza que o tempo nos interpela.

Em 2025, Portugal voltou a ser fustigado pelas chamas que vestiram de negro as suas paisagens. Mais uma vez, a paisagem deu lugar ao silêncio da cinza. Perante este cenário repetido, muitos de nós sentimos a impotência de quem nada pode fazer — o peso de assistir à destruição anunciada. Mas sentiram, também, algo mais profundo: a vontade de intervir, de compreender, de agir, para que a memória do fogo não seja apenas perda, mas aprendizagem e recomeço.

É nesse espaço, entre a dor e a ação, que nasce o projeto Mapear para Proteger1, integrado no Memórias da Floresta2. Um projeto que procura olhar para lá da paisagem queimada e escutar o que permanece vivo: a fauna que resiste, os ecossistemas que tentam regenerar‑se, e as relações invisíveis que sustentam a biodiversidade. Porque a beleza da floresta não está apenas nas árvores que vemos, mas também nos animais que nela habitam, nos sons que a percorrem e nas interações que a mantêm funcional.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de olhar para as áreas florestais com a audácia de quem reconhece que tudo deve à Natureza. Com a responsabilidade de quem entende que proteger não é apenas um dever para o presente, mas um compromisso com o futuro. Um dever de intervir, de mudar práticas, de restaurar relações, entre pessoas e território, entre conhecimento e cuidado.

O Mapear para Proteger surge, assim, não como um gesto isolado, mas como a continuação natural de um trabalho que se vem construindo há vários anos. Na Serra da Lousã, a monitorização das populações de ungulados, em especial do veado, tem permitido acompanhar de forma contínua como é que estas espécies utilizam o território, respondem às perturbações e se adaptam a uma paisagem em mudança. Essa memória ecológica acumulada é hoje essencial para compreender o impacto do fogo, não apenas como evento pontual, mas como processo com efeitos duradouros.

Neste contexto, a iniciativa veio reforçar e ampliar esse esforço. Além da plataforma de ciência cidadã, foi intensificada a monitorização no terreno, com a instalação de equipamentos de deteção remota em mais de 70 pontos de amostragem distribuídos pela serra. Os primeiros registos começam agora a chegar ao laboratório e os próximos meses serão marcados pela análise de milhares de imagens e gravações acústicas. Cada registo representa um instante da vida que persiste depois do fogo — identifica movimentos, presenças, silêncios, dados que nos ajudarão a compreender como a fauna reage, se reorganiza e continua a habitar um território profundamente transformado.

Falar da beleza da floresta é também reconhecer que ela existe em diferentes camadas. Nem toda a beleza é invisível: muito do que nos rodeia é evidente, está à vista de todos. A presença dos animais, os sons que atravessam a serra, a diversidade de formas e cores que regressam mesmo após o fogo. Mas há também uma beleza mais subtil, feita de cheiros, sensações e emoções, que se entranha na experiência sem pedir atenção. O aroma da terra, o silêncio interrompido por um som distante, a familiaridade de um percurso repetido, memórias que, sem darmos conta, passam a fazer parte da nossa história pessoal e coletiva. Ainda assim, na correria do dia a dia, esquecemo‑nos facilmente do quanto essa beleza é essencial, não apenas para os ecossistemas, mas para nós próprios, para o nosso bem‑estar e para as relações que estabelecemos com o território que habitamos. A floresta deixa de ser espaço vivido para se tornar pano de fundo, até que um incêndio nos obriga, abruptamente, a voltar a olhar.

É muitas vezes nesse momento de choque que nasce a vontade de agir. Uma vontade legítima, intensa, mas frequentemente passageira. No entanto, proteger a natureza exige mais do que respostas imediatas a eventos extremos.\
Exige uma vontade continuada, não reativa, capaz de se transformar em compromisso a longo prazo. Uma vontade que não se limite a reparar danos, mas que procure compreender processos, respeitar ritmos e reconhecer que a regeneração acontece no tempo da natureza, não no nosso. Plantas e animais reinventam estratégias para sobreviver, adaptam comportamentos, persistem em territórios alterados, e é nessa capacidade de resistência que continuam, silenciosamente, a conquistar‑nos pela sua beleza.

Falar de conservação é, por isso, falar também de coexistência. E essa coexistência não é vivida da mesma forma por todos. Há quem se aproxime da natureza de forma pontual, num momento de contemplação ou lazer, e há quem nela viva e dela dependa diariamente. Para estas comunidades, a relação com a vida selvagem é mais complexa, marcada por uma tensão constante entre o desejo de preservar e a necessidade de subsistir. É nesse espaço de conflito, interno e coletivo, que se tornam visíveis os desafios reais da conservação. Reconhecer estas diferentes perceções é essencial para construir soluções justas, que respeitem tanto as pessoas como os ecossistemas, e que permitam uma real coexistência entre as pessoas e a vida selvagem num território em permanente transformação.

É precisamente neste ponto que o Mapear para Proteger ganha sentido, como espaço de concretização dessa vontade que precisa de ser continuada e partilhada. Uma vontade que não se esgota no impulso do momento, mas que se constrói no tempo, tornando-nos ativos em vez de reativos, disponíveis para olhar em profundidade para as causas e não apenas para as consequências. Um espaço onde o conhecimento científico se cruza com o conhecimento empírico das comunidades locais, de quem vive o território todos os dias, e onde dessa escuta mútua podem nascer soluções mais justas, mais equilibradas e socialmente responsáveis. Proteger a floresta é também um exercício de justiça e equidade, de responsabilidade para com as gerações vindouras, para que o futuro não continue a pintar‑se de negro a cada verão. Para que o verão volte a ser cor e não dor, feito de longos entardeceres dourados e não vermelhos, de dias aquecidos pelo sol e não pelas chamas, de regressos das gentes à terra e não de gentes chamadas a defender casas humanas, sem mãos suficientes para defender todos os outros lares que são também casa — os da floresta, dos animais e da própria vida que nela persiste.

Esta necessidade de pensar a conservação como um processo contínuo, informado e partilhado não surge no vazio. Na Europa, a recente Lei do Restauro da Natureza estabelece metas ambiciosas para recuperar ecossistemas degradados, reconhecendo que proteger não basta — é preciso restaurar, acompanhar e aprender com o território. À escala global, a Agenda 2030 das Nações Unidas e o Quadro Global para a Biodiversidade Kunming–Montreal, aprovado no âmbito da Convenção sobre a Diversidade Biológica, definem um conjunto claro de compromissos orientados para a ação até 2030, sublinhando a urgência de travar a perda de biodiversidade através de conhecimento científico sólido, monitorização continuada e envolvimento ativo das comunidades. Iniciativas como o Mapear para Proteger inscrevem‑se neste contexto mais amplo, traduzindo os compromissos globais em ações concretas, enraizadas num território específico e na sua memória ecológica.

O futuro da conservação constrói‑se nesse equilíbrio delicado entre conhecimento e memória. O conhecimento fundamental, desenvolvido ao longo do tempo, permite‑nos compreender a complexidade dos ecossistemas e antecipar caminhos possíveis para a sua proteção. A memória do passado — das paisagens, das espécies, das relações perdidas e reconstruídas — ajuda‑nos a não repetir erros e a imaginar futuros mais justos. Conservar a natureza não é um ato isolado nem uma imposição, mas um processo partilhado, feito com as pessoas que vivem o território, que o conhecem e que dele dependem. Quando ciência, experiência e escuta se encontram, a conservação deixa de ser resposta a uma crise momentânea e transforma‑se num compromisso duradouro, capaz de manter os territórios naturais como espaços vivos, habitados, e continuamente reinventados.

1 Mapear para Proteger é uma iniciativa do BeWild Lab do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra (UC) e está integrado no projeto «Sexual behaviour in ungulates: Bridging sexual differences in behaviour and wildlife conservation», DOI: 10.54499/2022.05848.CEECIND/CP1714/CT0008, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), através do programa CEEC IND5ed.

2 Memórias da Floresta é uma iniciativa do História, Territórios e Comunidades, pólo NOVA FCSH do Centro de Ecologia Funcional — Ciência para as Pessoas e o Planeta —, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.

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    - [A Beleza Intrínseca à Autenticidade.](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/a-beleza-intrinseca-a-autenticidade/)
    - [Uma Nova Biblioteca para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra](https://www.uc.pt/rualarga/revistas/beleza/oficina-dos-saberes/patrimonios/uma-nova-biblioteca-para-a-fduc/)

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