A Beleza e a Ciência
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A Beleza e a Ciência
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JR
João Ramalho-Santos
Vice-Reitor para a Investigação, Universidade de Coimbra
A beleza não é necessariamente científica. Nem deve ser. Não convém definir tudo sempre de um modo lógico e, sobretudo, universal. Os conceitos de beleza (ou de inteligência, ou de «normalidade») variam de acordo com os tempos, os modos, e o enquadramento sociocultural. Basta ver como se definiram e retrataram ideais de beleza na arte ao longo dos séculos.
Na verdade, o que é que a beleza tem que ver com a ciência? É um tema sério?
Tão sério que há artigos científicos recentes que o abordam, e esse é um bom ponto de partida. Nesses artigos, entrevistaram‑se centenas de investigadores e investigadoras de diversos países e áreas científicas, procurando saber de que modo encaram conceitos de beleza como parte do seu trabalho diário. Os resultados não deixam de ser curiosos.
Desde logo, para a esmagadora maioria de cientistas a beleza é um elemento sempre presente, e muito relevante na sua atividade. Afirmam encontrar beleza em diferentes momentos da sua investigação, nos diversos temas e assuntos que abordam. Uma equação, um modelo económico, imagens de cristalografia ou ressonância magnética, uma célula, um poema, uma rede metabólica, uma nova espécie, um livro, o voo de um bando de pássaros, os resultados de inquéritos, um texto legal, uma coleção de instrumentos científicos, um jardim botânico, uma biblioteca.\ Mais, afirmam que esse elemento de beleza no seu trabalho de todos os dias traz um nível de entusiasmo que se reflete na satisfação com que encaram a sua atividade.
Parece uma coisa tão trivial, não é? A beleza enquanto motor de felicidade, também na nossa atividade profissional. Só que, por vezes, é bom reafirmarmos coisas óbvias, sobretudo quando são verdadeiras. Curiosamente, foram encontradas variações consoante as áreas de especialização. Por exemplo, físicos tendiam a valorizar atributos de simetria e de simplicidade como sendo mais belos, enquanto biólogos privilegiavam a complexidade. Mas falar de beleza em ciência pode não ser linear. Desde logo porque uma teoria ser muito elegante, e ter beleza formal, não significa que seja (ou tenha de ser) verdadeira.\ \ Como uma hipótese parecer «feia» não quer dizer que deva ser descartada, sem mais. Embora possa incluir critérios estéticos, a ciência não se rege por eles. Em ambos os casos é preciso investigar, duvidar com método, validar. Note‑se que até investigadores famosos revelaram esse tipo de vieses, apoiando ou renegando teorias, dependendo da beleza que nelas encontravam.
Convém nunca esquecer que cientistas são pessoas, tão sujeitos a idiossincrasias como qualquer um de nós. Também por isso a ciência tem de ser um exercício coletivo e global, onde imperem factos verificáveis, devidamente enquadrados nos contextos em que são recolhidos e reavaliados a cada momento.
Desse ponto de vista, o erro é algo que deve ser encarado como normal, tem é de haver maneira de o identificar e corrigir. A ciência não deve ser um regime autoritário, mas também não é uma democracia linear em que cada voz conta tanto como qualquer outra. Se assim fosse, era bem provável que a astrologia fosse considerada mais credível e relevante para a espécie humana do que a astronomia.
Noutra perspetiva, uma das coisas que se aprende em ciência é que nunca nos devemos apaixonar por uma hipótese de trabalho, por mais certa que nos pareça. Porque «quem feio ama, bonito lhe parece», e cientistas apaixonados por uma ideia podem valorizar apenas dados que validem a hipótese bem‑amada, ignorando os que vão contra ela.
No entanto, os mesmos estudos que procuraram identificar o papel da beleza no dia‑a‑dia de cientistas também revelam que a maioria (como os membros da comunidade académica e universitária, em geral…) está muitas vezes assoberbada com tarefas burocráticas e administrativas que subvertem o seu trabalho. Tarefas essas que podem não ser totalmente necessárias, antes parte de um mecanismo inexorável. Um mecanismo que talvez tenha sido pensado da melhor maneira, mas que se descontrolou, tornando‑se opressivo. Sobretudo, um sistema visto como gerador constante de novos procedimentos, não necessariamente feios. Mas não, de todo, belos.
Também por isso muitas pessoas na comunidade correm riscos de desgaste acentuado, com particular incidência nas mulheres e, sobretudo, nos alunos e alunas de doutoramento. A beleza na ciência não deve ser usada para escamotear um estado de coisas classificado, com um encolher de ombros, como um «novo normal». Ver a beleza das coisas ajuda‑nos a estar bem. Mas o contrário também é (muito) verdadeiro.
Para chegar à beleza, às vezes, temos de resolver muitos problemas feios. É esse o desafio, e é essa a luta que vale a pena travar. Pela, e com, toda a comunidade académica.
P.S. — Este texto é dedicado, com muito amor, aos Callebaut e aos Mendes que trazem beleza à minha vida:\ Cássia Callebaut Mendes\ Diana Callebaut Mendes Ramalho Santos\ Hugo Callebaut Mendes Ramalho Santos\ Denise Callebaut\ E em memória de Franklim Mendes, que foi, de forma simples e genuína, o que eu tento ser, mas nem sempre consigo. Um Homem Bom.
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